
RUTE ELLA DOMINICI
As fases da vida se revelam como frutos sazonais. Alguns amadurecem no tempo certo, embriagando o ar com perfumes doces e macios. Outros, porém, rompem os ciclos, nascem à revelia das estações, inesperados, intrusos, ásperos ao tato, estranhos ao gosto. Há frutos que causam perplexidade, que ferem antes de nutrir.
Quando a verdade emerge, pensamentos que antes flutuavam à deriva despertam em sobressalto. O inconsciente se rasga como um vitral ao impacto da luz. Estilhaços de memória atravessam o tempo e se fixam em imagem.
Era ela, Rachelle. Saltava no mesmo lugar, os pés mal tocavam o chão antes de serem lançados de novo ao alto, em um vaivém de desespero e repetição. Os braços se erguiam como prece e desabavam como praga. A mão direita, desgovernada, golpeava os próprios lábios, feria a boca, rachava os dentes. O sangue escorria, testemunha silenciosa de uma guerra invisível.
A menina, com seus três ou quatro anos, assistia. Olhos grandes, perplexos. Por que a mãe se castigava? Quem era o algoz que a feria, que a obrigava a dizer palavras de expulsão, como se sua culpa fosse um bicho entranhado na alma? O que ela queria varrer para as trevas?
A criança não via o inimigo, mas sentia seu peso. O medo de Rachelle era denso como neblina, sufocava, empapava os olhos da menina até que ela também chorasse. Às vezes, sem compreender, repetia as palavras da mãe, conjurando o desconhecido, desejando afastá-lo. Mas o que se afasta quando não se sabe o que se teme?
Foram muitas as vezes em que Sophia a viu ferir-se, consumida por uma dor sem nome. Foram tantas, que um dia fechou os olhos para não mais ver. Enterrou as imagens em seu peito, trancou-as em uma caixa funda dentro de si.
Mas a infância enterrada não morre. Apenas dorme.
Anos depois, agora adulta, conhecendo enfim o diagnóstico de Rachelle, esquizofrenia do tipo paranoica, imagens ressurgiram. Não como lembranças isoladas, mas como um turbilhão. Um grande cristal se partia em mil lâminas dentro dela. O vidro estilhaçado vertia sangue e espelhava o rosto da mãe.
Sophia sentiu o impulso. A mão ergueu-se por instinto, pronta para repetir o gesto de Rachelle, para golpear a própria boca, para sangrar da mesma dor.
Mas então, no exato instante em que a pele tocava os lábios, algo se rompeu de outra forma.
A lucidez veio como um vento seco, cortando a névoa.
Ela viu.
Viu a Rachelle menina, assombrada pelo que nunca compreendeu. Viu a Rachelle mulher, submersa em um mar revolto. Viu a si mesma, segurando uma herança de dor que não lhe pertencia.
E compreendeu.
Não era preciso repetir para entender. Não era preciso sangrar para sentir.
A dor da mãe não era culpa dela. A ferida da mãe não era a sua.
A mão, ainda erguida, hesitou. Depois, desceu devagar. Tocou o próprio rosto, mas não para ferir—para acolher.
E então Sophia chorou.
As lágrimas escorriam como o cristal que se derrete, como o vidro que já não corta.
Chorou pela mãe. Chorou pela menina que foi. Chorou pelo que não pôde mudar. Mas, ao chorar, algo se aliviava, algo se dissolvia.
O cristal íntimo de Sophia não sangrava mais. Apenas vertia lágrimas.
E, pela primeira vez, essas lágrimas não eram de dor.
(Esse momento é um ponto de virada para Sophia, onde ela rompe o ciclo da repetição traumática sem negar sua história, mas transformando-a.)
Por RUTE ELLA DOMINICI
