CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Os 40 Segundos que Salvam: Elogio à Pausa em Tempos Acelerados

CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Os 40 Segundos que Salvam: Elogio à Pausa em Tempos Acelerados

“O ponto de vista cria o objeto.” Ferdinand de Saussure

 

Olá. Como você está neste momento? Já respirou hoje? Já viveu hoje?

“Estou aqui com meus botões”, como diz o adágio popular. Não sei se já aconteceu com você. Espia só: sabe quando, de repente, você é surpreendido por algo que sempre vê? Pois é: aconteceu comigo: voltando à academia por questão de saúde, me deparei com contornos e paisagens (des) – conhecidas até então, mas a questão é que passo todos os dias no mesmo lugar… o que havia mudado então?

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 02/04/2026″

 

Quem somos, afinal, quando alteramos o ponto de vista pelo qual enxergamos o mundo?

Se você também quer desbravar novos horizontes, vem comigo!

 

 

CRÔNICA

Os 40 Segundos que Salvam: Elogio à Pausa em Tempos Acelerados

 

É uma segunda-feira pela manhã: dia de, finalmente, retomar as atividades físicas em nova academia. Não porque aprecie: recomendação médica e prudência apenas. Olho atentamente o espaço desconhecido e, felizmente, encontro rostos conhecidos. Entre uma série e outra de exercício, a instrução: intervalo de 40 segundos. Confesso que fico impaciente, pois a vontade é terminar logo para vir embora. Sempre penso: “não sou robô pra fazer exercício em série. ” Mas…

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Sempre tem um mas, não é? Foi justamente em uma dessas pausas, que vi o óbvio: sem o descanso, o benefício da prática física não acontece. Porque é no intervalo que o músculo se recompõe, promovendo saúde para o corpo. Sem repouso, a lesão é inevitável: no corpo e na alma…  Na pausa, os ciclos se completam e as experiências são processadas.  Enquanto observava as pessoas treinando freneticamente, fiquei ali – vários 40 segundos – pensando no quanto estamos acelerados – individual e coletivamente. Estamos anestesiados. Robotizados. Cindidos.

São tantos os sinais de nossa urgência em (sobre)viver. Me ajuda a listar alguns comportamentos sintomáticos? Acelerar áudios do WhatsApp, subir correndo a escada rolante do metrô, usar sem moderação aplicativos de entrega rápida, não admirar o pôr-do-sol, não sentir o sabor dos alimentos, não estar presente na própria vida.  O que mais? Tudo ultra acelerado. A isso, hoje, se chama viver. Lembrei-me da incrível Marina Colasanti, em “Eu sei, mas não devia”:

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“A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está́ contaminada, a gente molha só́ os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está́ duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.”

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Recentemente, também li em uma página do Instagram – @sobrebudismo – as seguintes provocações:

 

“A pressa é o novo abandono.

Na tentativa de não ficar para trás, muita gente corre em direção a lugar nenhum.

A pressa foi romantizada como sinônimo de produtividade, mas é só mais um disfarce para desconexão.

Quando tudo precisa ser feito rápido, nada é feito com atenção.

Comer correndo, conversar olhando no celular, ouvir sem escutar, viver sem estar no aqui e agora.

A correria te prometeu sucesso, mas só te entregou ansiedade.

O agora virou um obstáculo a ser superado, como se o futuro fosse um prêmio que justifica o abandono do presente.

E a presença, essa rebelde silenciosa, continua sendo a única que te traria paz.

O que você perdeu tentando ganhar tempo? ”

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Para mim, a frase “a pressa é o novo abandono” foi pesada. Está aqui até agora reverberando. Porque abandono é palavra forte demais. Doída e solitária. Como chegou aí? Aliás, você tem se abandonado com frequência?

Afinal, o que aconteceria se você desacelerasse e pudesse sentir a vida?

Voltando à academia, enquanto aguardava a professora, olhei pela janela de vidro e fiquei intrigada: que lugar era aquele? Fui surpreendia por um cenário novo-velho: a rua era conhecida, mas, sob outro ângulo, tive dificuldade de re-conhecer. A pressa – amiga fiel do automatismo – nos rouba os detalhes da vida – isto é, a sua riqueza.  Você sabe, né? É no detalhe que a magia acontece. Mas, só olha para ele quem acolhe os processos. Dia desses, aliás, li uma frase sem autoria assim: “O processo é o propósito. ” Fiquei pensativa. A gente consegue suportar o processo? E, olhe, suportar é pesado também: envolve fazer esforço, aguentar. Como seria experienciar o processo? Veja o que Drummond poetizou em momentos distintos:

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Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

 

Cota zero

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

 

De ângulos novos, a realidade também é outra. Saramago disse: “Para conhecer a verdade há que se dar a volta toda. ”

– Você consegue surpreender-se com a sua rotina?

– Se permite criar novo olhar sobre o já visto?

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Sabe, às vezes, a gente se apaixona por algumas versões da realidade… e faz um esforço danado para não abrir mão delas… já aconteceu com você? A vida é misteriosa e sábia: de novo, a imagem da espiral – sempre a mesma e sempre renovada… paradoxo fundante da existência.

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Quando saí da academia, estava revigorada: menos pelos exercícios e muito mais pelas novidades que havia descoberto: olhei com detalhes o alto das casas, pude ver melhor a perfeição das flores, do alto, vi minha rua tão menor do que supunha, descobri detalhes na arquitetura, vi a torre da igreja mais de perto. Enfim, as novas perspectivas foram atualizadas com sucesso! Ah, sim: parece possível traçar um paralelo sobre atualização obrigatória de aplicativos nos eletrônicos: ou os atualizamos ou perdem o funcionamento. Parece que somos iguais, não? Sem atualização, ficamos obsoletos, rígidos e inférteis…

Para você, como é voltar a lugares conhecidos com olhar de curiosidade e se deixar surpreender?

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Afinal, você tem se atualizado na sua vida?

Com o desejo sincero de que seus dias sejam mais que dias comuns – menos pelos acontecimentos grandiosos e mais pela sua presença e conexão – deixo um abraço apertado, recheado de carinho!

Por ADRIANA MOURA SALLES

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