LITER’ALMA Chapada dos Guimarães: uma trilha, uma medalha de ouro e um aprendizado sobre a vida

LITER’ALMA Chapada dos Guimarães: uma trilha, uma medalha de ouro e um aprendizado sobre a vida

Há experiências que não terminam quando chegamos ao destino. Elas continuam caminhando dentro de nós, silenciosamente, transformando a forma como enxergamos a vida e fazendo toda a diferença em nosso destino.

Existem períodos em que a alma atravessa desertos invisíveis. Dias em que nos sentimos sem força, sem preparo, sem coragem suficiente para continuar. E, curiosamente, é justamente nesses momentos que a vida costuma nos convidar para uma travessia.

Porém, nem toda trilha começa com confiança. Às vezes, ela começa com o medo. Outras vezes, inicia-se no cansaço, logo após uma grande mudança, quando ainda estamos tentando reorganizar o corpo, os pensamentos e os sentimentos.

A verdade é que ninguém atravessa uma montanha e retorna exatamente a mesma pessoa. Estou certa de que você, caro leitor ou leitora, já percebeu isso.

Esta edição da Liter’Alma nasceu de uma experiência real: uma peregrinação de 34 quilômetros na Chapada dos Guimarães, vivida em 2003, poucos meses após uma cesariana; um período em que meu corpo ainda aprendia a se recuperar e minha alma tentava compreender sua nova forma de existir.

Mas esta não é apenas uma história sobre caminhada.

É uma história sobre pertencimento. Sobre influência emocional. Sobre os grupos com os quais escolhemos caminhar. E, principalmente, sobre descobrir que talvez a maior vitória da vida não seja vencer, mas continuar.

 

CADERNO DE RECOMEÇOS

Eu não tinha preparo físico, não era atleta, não treinava e nem sequer fazia longas caminhadas. Além disso, meu corpo carregava as marcas recentes da maternidade: havia apenas três meses que eu passara por uma cesariana.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK. AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Estava retornando ao trabalho logo após o término da licença-maternidade, e a empresa em que eu trabalhava havia organizado uma experiência incrível para os funcionários: uma trilha na Chapada dos Guimarães. A intenção era fortalecer o trabalho em equipe e gerar superação individual. Como o desafio era intenso, optei, de início, por não participar da caminhada. Escolhi ficar no carro de apoio, que levava itens de primeiros socorros, rádio e comida, oferecendo suporte aos que seguiriam pela Chapada. Parecia a decisão mais sensata, confortável e segura.

Mas existem momentos em que algo dentro de nós pede passagem, como um chamado difícil de explicar e impossível de ignorar. Algo em mim dizia: Viva essa experiência!

E então, decidi caminhar. Meu líder, Iron Santana, ficou relutante; talvez tenha pensado que eu atrasaria a turma ou temido por minha saúde física. No entanto, não me impediu.

No começo, tudo parecia apenas uma trilha comum: uma equipe com pessoas diferentes compartilhando o mesmo percurso e o mesmo objetivo de concluir 34 quilômetros de mata para chegar ao topo. Mas, conforme os quilômetros avançavam, comecei a perceber algo mais profundo: cada grupo carregava uma energia emocional própria.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART. AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Na frente, estavam os entusiasmados, aqueles que acreditavam que a experiência seria incrível e seguiam admirando a paisagem. Vez ou outra, repetiam: “Força, nós vamos conseguir!”

No meio, estavam os “inseguros esperançosos”. Os que sentiam medo, mas continuavam mesmo assim — pessoas de poucas palavras, penso que para economizar energia.

Mais atrás, estavam os derrotados por antecipação. Aqueles que, antes mesmo dos primeiros sinais de cansaço aparecerem, já queriam desistir. Reclamavam do percurso, transformavam o cansaço em condenação e falavam da desistência como se ela fosse inevitável. Ouvi frases como: “Eu queria estar em casa”, “Não vejo sentido nisso”, “Não vou conseguir”.

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Eu comecei o percurso entre os derrotados, mas logo compreendi que estava me contaminando com aquele sentimento de fracasso. Ali, entre os pessimistas, comecei a desacreditar de mim mesma. O corpo parecia mais pesado. A subida, mais difícil. O medo, mais intenso. Percebi que, se continuasse daquela forma, desistiria.

Então, apertei o passo e, por um tempo, caminhei entre os medianos, aqueles que estavam se esforçando, mas sem muito entusiasmo. Pensei que, se permanecesse com eles, até poderia concluir o percurso (e realmente muitos concluíram), mas a experiência não seria tão divertida e transformadora quanto poderia ser.

Depois de alguns quilômetros, consegui me aproximar daqueles mais animados, que realmente acreditavam na chegada ao topo. E algo extraordinário aconteceu. O percurso não ficou mais fácil. A Chapada continuou íngreme. O corpo permaneceu cansado. A dor continuou existindo. Mas a alma mudou.

Passei a ouvir palavras de incentivo. Pessoas oferecendo ajuda. Gente admirando a paisagem em vez de amaldiçoar a caminhada. Pessoas cansadas, sim, mas comprometidas em seguir até o fim. Foi quando descobri uma lição que muda a vida: há ambientes que drenam nossa energia, e há ambientes que despertam nossa potência.

Foram dezesseis horas de caminhada.

Dor.

Exaustão.

Superação.

Ao final da trilha, recebi uma “medalha de ouro”, um objeto simbólico para a verdadeira recompensa: perceber o quanto éramos capazes. Capazes de continuar. Capazes de suportar. Capazes de atravessar aquilo que, antes, parecia impossível.

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Desde então, sempre que a vida parecia difícil demais, eu me lembrava daquela trilha, fazia os ajustes necessários e simplesmente seguia em frente. Há experiências que não terminam quando chegam ao fim; elas continuam acontecendo dentro de nós durante anos. E, enquanto algumas pessoas carregam cicatrizes, outras carregam medalhas invisíveis.

Quando a vida volta a doer, quando o medo reaparece ou quando nos sentimos pequenos demais diante de um desafio, retornamos silenciosamente a momentos como esse para lembrar quem somos.

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Foi isso o que aconteceu naquela trilha na Chapada dos Guimarães.

A princípio, parecia apenas uma experiência corporativa. Um desafio físico. Uma caminhada longa demais para alguém sem preparo, recém-saída de uma cesariana, cansada, insegura e emocionalmente vulnerável.

Mas a vida raramente nos leva a um lugar apenas pelo motivo aparente. Às vezes, uma montanha é apenas uma montanha. Outras vezes, ela é uma iniciação. E talvez crescer seja justamente isso: descobrir que existem caminhos que o corpo percorre apenas para que a alma desperte.

 

CARTOGRAFIA DA ALMA

A psicanálise compreende que o ser humano é profundamente influenciado por seus vínculos. Não nos construímos isoladamente; nossa identidade é moldada através das relações, dos espelhos emocionais, da linguagem e da convivência.

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O psicanalista Donald Winnicott compreendia que o ser humano não floresce no vazio. O self (o si-mesmo) se fortalece nos encontros que oferecem segurança, acolhimento e a possibilidade de existir sem medo. É por isso que algumas pessoas expandem nossa existência, enquanto outras nos diminuem silenciosamente. Como ele próprio apontava, é no encontro com o outro que o self se desenvolve.

Isso significa que nossa subjetividade floresce ou adoece conforme os ambientes emocionais que habitamos.

Há relações que nos expandem; outras nos reduzem lentamente.

Há pessoas que despertam nossa potência; outras, o nosso medo.

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Há ambientes que nos fazem acreditar que somos capazes; outros nos convencem de que jamais conseguiremos.

Muitas vezes, pensamos que a força emocional é uma questão estritamente individual. Mas não é. O ser humano é essencialmente relacional. Precisamos de incentivo, pertencimento, validação e segurança para desabrochar.

O psiquiatra e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl dizia que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como”. É exatamente isso o que acontece quando encontramos pessoas e ambientes que alimentam nossa esperança: eles nos ajudam a lembrar o motivo de continuar.

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Durante a trilha na Chapada dos Guimarães, o cansaço físico não foi a única dificuldade. Havia também o peso emocional das vozes negativas, das reclamações constantes e da sensação silenciosa de incapacidade que determinados ambientes despertam. Por um instante, ceder ao desânimo parecia mais fácil do que persistir.

Mas tudo mudou com a decisão de caminhar ao lado daqueles que ainda acreditavam na experiência. As palavras de incentivo, o espírito de cooperação e a beleza compartilhada da paisagem devolveram o sentido ao percurso. Suportamos melhor o sofrimento quando ele encontra propósito e conexão. Frankl compreendia que o ser humano não resiste apenas por vigor físico, mas pela existência de algo — ou alguém — que torne a caminhada significativa.

A experiência na chapada revela que, às vezes, não estamos fracassando por incapacidade. Estamos fracassando porque estamos cercados de desesperança.

 

CRIAR-SE

O ser humano é profundamente influenciável. Isso não é fraqueza; é a nossa natureza. Por isso, não basta saber se estamos no caminho certo, precisamos nos questionar se estamos com as pessoas certas.

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Este exercício pode ajudar a clarear a mente. Faça uma caminhada em solitude, sem pressa e por um caminho tranquilo, e reflita:

  • Quem eu era há cinco anos?
  • Quem estou me tornando hoje?
  • Que pesos emocionais preciso deixar pelo caminho?
  • Qual medalha invisível desejo conquistar?
  • Quais pessoas verdadeiramente apoiam os meus projetos?
  • Como posso me posicionar ou transformar os ambientes que não me fazem bem?

Ao final da caminhada, escolha uma pequena pedra no chão e leve-a consigo. Ela será a sua medalha: um símbolo concreto para lembrar você da importância de seguir adiante, sustentando os passos ao lado das pessoas certas.

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ALMA EM VERSOS

Existem histórias que apenas entretêm, e outras que nos encontram no momento exato em que precisamos delas. Alguns livros nos acolhem. Alguns filmes nos reorganizam emocionalmente. Algumas músicas funcionam como lanternas em períodos escuros da vida.

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Nesta edição, escolhi obras que dialogam intimamente com a travessia da Chapada dos Guimarães: coragem, superação, pertencimento e a delicada descoberta de que, muitas vezes, somos mais fortes do que imaginamos.

Filme | Sociedade dos Poetas Mortos

Embora lançado no final da década de 1980, tornou-se uma das obras mais simbólicas para uma geração inteira de jovens nos anos seguintes. A história acompanha um professor de literatura que desperta em seus alunos algo que a sociedade frequentemente tenta silenciar: a autenticidade.

Mais do que um filme sobre poesia, é uma narrativa sobre coragem existencial; sobre aprender a ouvir a própria voz em meio ao barulho do mundo e não viver apenas para corresponder às expectativas externas. Existe um paralelo profundo entre a trilha na Chapada e os ensinamentos do professor Keating: as pessoas ao nosso redor influenciam diretamente a maneira como enxergamos as nossas próprias possibilidades.

Livro | Em Busca de Sentido (Viktor Frankl)

Poucas obras falam com tanta propriedade sobre a resiliência e a resistência humana. Ao narrar sua experiência nos campos de concentração nazistas, Viktor Frankl demonstra que o ser humano é capaz de suportar dores inimagináveis quando encontra um sentido para continuar. Esta leitura conversa diretamente com a experiência da montanha porque nos lembra que o sofrimento muda de peso e de forma quando existe um propósito.

Música | Tocando em Frente (Almir Sater e Renato Teixeira)

“Ando devagar porque já tive pressa…”

Existem músicas que parecem estradas; esta é uma delas. A canção fala sobre maturidade, tempo, simplicidade e sobre a compreensão de que viver não é uma corrida de velocidade. Ela nos recorda que cada pessoa possui seu próprio ritmo de travessia e que chegar primeiro nunca é o mais importante. Continuar, sim.

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ESSENTIA

Talvez hoje você esteja caminhando entre pessoas que enfraquecem a sua luz. Existe algo profundamente perigoso na convivência com aqueles que já desistiram da própria esperança. O desânimo é contagioso e a desesperança também. Muitas vezes, não percebemos que estamos adoecendo emocionalmente porque nos habituamos a consumir, diariamente, discursos derrotistas.

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Esta é a hora de resgatar o sobrevivente que existe em você.

Quase sempre acreditamos que precisamos dar conta de tudo sozinhos, mas a vida ensina o contrário. Precisamos de suporte. Precisamos de vínculos seguros. Precisamos de pessoas que nos lembrem da vista bonita quando nossos olhos teimam em focar apenas no cansaço.

E, para mudar de vida, o melhor começo é simplesmente mudar de direção emocional:

  • Mudando de ambiente.
  • Mudando de companhia.
  • Mudando a forma como você conversa consigo mesmo.

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Ninguém floresce cercado apenas de desesperança. Lembre-se: você não precisa ser a pessoa mais forte da trilha. Você só precisa continuar caminhando.

Então, vá.

Respire fundo.

Aperte o passo.

Escolha melhor quem caminha ao seu lado.

E continue.

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Se esta reflexão tocou sua alma, compartilhe sua experiência nos comentários do Instagram @miakodaoficial.

Por MIA KODA

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