NOSSA LITERATURA Vilão, desafio ou sofrimento?

NOSSA LITERATURA Vilão, desafio ou sofrimento?

Estimados leitores,

É com grande satisfação que a Coluna Nossa Literatura – Virtudes Poéticas apresenta mais uma edição na The Bard, revista internacional dedicada à palavra que provoca, à reflexão que inquieta e ao pensamento que nos convida a olhar o mundo com mais profundidade.

Nesta 38ª edição, convido vocês a dialogarem com questões urgentes do nosso tempo, da educação à comunicação, da escuta ao silêncio, das palavras que nos constituem às relações que nos transformam. Este artigo nos convida à pausa, à leitura atenta e, sobretudo, ao exercício de pensar junto.

Acredito que a palavra escrita e falada ainda é um dos mais potentes instrumentos de transformação social. Por isso, mergulhar nesse texto como quem fala e escuta, com curiosidade, espírito crítico e abertura ao diálogo, vai além de qualquer reflexão poética, é um grito ínfimo de solidariedade.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Que esta leitura seja provocadora, inspiradora e, acima de tudo, significativa.
E se ressoar em vocês, passem adiante, compartilhem!

Reitero minha gratidão por estarem conosco na The Bard.

Boa leitura!

 

VILÃO, DESAFIO OU SOFRIMENTO?

“Apesar de tudo, há ainda as palavras que nos metem medo. Delas irrompe a cega proliferação de imagens. Porque se ao princípio era o nome, foi dos nomes que nasceram as coisas. ”
Helberto Helder

 

Ainda na pré-história, o homem descobriu que poderia criar mecanismos de organização e viver melhor em grupo. Para isso, a comunicação tornou-se sua principal aliada. Foi, e continua sendo, um dos maiores avanços da humanidade, uma tecnologia sofisticada e inegável. Contudo, junto a essa conquista, surgiram problemas que persistem até hoje.

No processo de sobrevivência, a linguagem emergiu como ferramenta essencial para o estabelecimento de regras e condutas. Por meio dela, o ser humano garante sua participação na sociedade ao longo da vida. À medida que o tempo avança e as tecnologias se renovam, comunicar-se torna-se ainda mais necessário, especialmente em um mundo globalizado e transformado pela internet, que revolucionou até mesmo a mente humana.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Mas, paradoxalmente, em tempos cada vez mais conectados, a citação de Graciliano Ramos “a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer” ganha ainda mais relevância. A palavra não é um acessório: ela possui corpo, ocupa espaço e protagoniza a essência do pensamento e do sentimento humano. Dizer é como sentir, sem clareza, vira, além de desorganização, muita confusão. E quando não somos ouvidos, o que sentimos pode se transformar em sofrimento silencioso.

É natural que o ser humano se expresse e queira manifestar seus sentimentos e defender suas convicções. Porém, nesse processo de aprendizado e convivência, surge a necessidade de uma habilidade fundamental: a escuta. Não à toa, conhecemos a máxima atribuída a Pitágoras: “Escuta e serás sábio; o segredo da sabedoria é o silêncio.” A escuta atenta é uma virtude, enquanto falas precipitadas tornam-se meros ruídos na comunicação.

No ambiente escolar, esses ruídos têm protagonizado o cotidiano dos estudantes e dificultado a organização e condução de processos que dependem de harmonia para se consolidar. São muitas camadas que se transformam em desafios nas mãos dos professores, mas a agitação, a falta de concentração e a ausência de escuta ativa têm sido os maiores vilões. Mais do que isso: geram frustração, ansiedade e um sentimento de invisibilidade em crianças e adolescentes que precisam ser vistos e compreendidos.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Esse fenômeno, porém, não se restringe à escola. No ambiente familiar, é igualmente comum percebermos, até entre os adultos, uma necessidade de fala muito maior que de escuta. O diálogo genuíno cede espaço ao monólogo disfarçado, onde cada um espera apenas sua vez de falar, sem verdadeiramente ouvir o outro. O resultado? Relações sem sentido, conflitos não resolvidos e um sofrimento compartilhado que raramente é nomeado ou é mal interpretado, podendo desencadear outros fatores, como isolamento, depressão, etc.

É comum ouvirmos que crianças e adolescentes são “desafios” para os professores. Na verdade, não se trata apenas disso. Crianças e adolescentes atravessam fases de desenvolvimento pessoal, cognitivo e social que exigem cuidado e orientação de famílias e profissionais. O que parece estar ocorrendo é uma “desaprendizagem” do ato de escutar, e isso, sim, não se trata somente de desafio, mas também de sofrimento. Um desafio que, quando ignorado, transforma-se em dor para todos, inclusive para os professores que não conseguem desenvolver seu trabalho com eficiência e tendem a querer controlar e resolver situações que fogem de sua responsabilidade.  

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Afinal, quando falar já não é dizer, a falta de escuta é, ao mesmo tempo, vilão, desafio e sofrimento. Vilão porque sabota o processo educativo; desafio porque exige mudança de postura de todos os envolvidos, essencialmente dos professores que coordenam salas de aulas numerosas; e sofrimento porque reverbera diretamente no trabalho e na saúde do professor, que precisa se fazer ouvido, mas não tem quem o escute. Nesse ciclo de surdez coletiva, todos perdem: alunos, famílias e, especialmente, aqueles que dedicam suas vidas a ensinar. Cabe às famílias, portanto, assumir seu papel fundamental na educação para a escuta, cultivando desde cedo, no seio familiar, a capacidade de ouvir com atenção e respeito. Sem essa base, a escola SOZINHA não conseguirá reverter um problema que se constrói, ou se desconstrói, primeiramente em casa.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 03/06/2026″

 

Nesse contexto, todos temos a necessidade primeira de aprender a ouvir e utilizar o nosso silêncio para perceber o mundo.

Por MÁRCIA NEVES

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *