Poesia não é ornamento sonoro,
não é só rima que se encaixa
ou metáfora que se exibe.
Não nos interessa
o adjetivo que enfeita.
Preferimos o verbo
que move a mobília do mundo.
Não nos serve a explicação polida.
Desejamos a tensão elétrica
entre duas palavras
que quase se tocam
e faíscam.
Aqui, ideia não desfila conceito:
vira corpo, gesto sem jeito,
cena atravessando a sala.
O cérebro entra em combustão lúcida,
sinapses suadas,
o pensamento com odor de ferrugem
e perfume de madrugada.
O afeto não é abstração domesticada:
é carne viva sobre a mesa,
é pulso visível,
é cicatriz que ainda conversa com o dedo.
Troca-se o adjetivo pela ação.
Troca-se a tese pela imagem.
Troca-se o conforto da explicação
pela vertigem da pergunta.
O poema não descreve o incêndio:
ele queima.
Não fala da chuva,
mas molha o leitor.
Não teoriza o abismo;
abre-o sob os pés.
Texto com textura:
áspero como parede antiga,
úmido como orvalho
nas xícaras da madrugada,
denso como sentença
que não cabe no papel.
LabVerso não escreve
para decorar a estante.
Escreve para deslocar o eixo.
Por PIETRO COSTA
Brasília – Distrito Federal, Brasil
