RECANTO DAS CULTURAS TRADICIONAIS – O cancioneiro da tradição oral popular: uma memória musical de muitas vozes

RECANTO DAS CULTURAS TRADICIONAIS – O cancioneiro da tradição oral popular: uma memória musical de muitas vozes

Nesta edição, a coluna Recanto das Culturas Tradicionais traz para os leitores uma discussão sobre o Cancioneiro Popular enquanto coletânea de composições artístico-musicais da oralidade, como um dos bens mais preciosos do patrimônio cultural de nosso povo. Partimos da concepção do vocábulo cancioneiro, passando pela origem, até a apresentação de versões de um dos tipos de cantiga de hoje, catalogadas em regiões do Brasil e em Portugal.

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Cancioneiro Popular: concepção e origem

Por cancioneiro popular, concebemos o acervo de cantigas da tradição oral passadas de geração a geração pela voz do povo. Nesse percorrer no tempo, na história e na memória, algumas cantigas são discretamente alteradas em sua letra, prevalecendo o ritmo e a melodia.

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Para Ricardo Mendes Mattos (1917), com os estudos folclóricos no Brasil, cujo olhar primeiro foi para a poesia popular, sobressai-se a relevância da “influência portuguesa nos cantos e contos brasileiros.” Segundo o autor, os estudos começam com Celso de Magalhães (1849-1879) que “tinha, inclusive, o projeto de cotejar suas coletas de cantos brasileiros com publicações do cancioneiro popular português – projeto, infelizmente, não publicado, devido à morte prematura do autor.” (1917, p. 129). Segundo Ricardo Mendes Mattos, “diversos dos mais importantes folcloristas brasileiros ressaltam a grande influência portuguesa na poesia tradicional brasileira, a exemplo de Silvio Romero, Amadeu Amaral, Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade […]” (1917, p. 129).

Desde a época medieval, de acordo com José Leite Vasconcelos, cantigas e poemas foram coletadas da tradição, cuja coletânea recebeu o nome de cancioneiro. O Cancioneiro Popular como temos hoje no Brasil, segundo o autor, tem sua origem nos cancioneiros do século XVIII (Santos; Batista, 1993).

Buscando no Dicionário de Literatura, organizado por José de Prado Coelho, em 1982, as professoras Idelette Muzart Fonseca dos Santos e Maria de Fátima Barbosa de Mesquisa Batista (1993) elecaram oito cancioneiros de origem ibérica. Referências a esses cancioneiros, bem como digitalizações de alguns deles podem ser encontrados na Biblioteca Digital Luso-Brasileira.

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Cancioneiro da Ajuda ou do Colégio dos Nobres, com 310 cantiga, reunidas em fins do século XIII, a partir de 38 autores diferentes.

Link das informações:

https://www.palacioajuda.gov.pt/paginas/c447c6cd

 

Cancioneiro da Biblioteca Nacional ou Colocci-Brancuti, com 1560 cantigas, compiladas em fins do século XV.

Link das informações:

https://bdlb.bn.gov.br/acervo/handle/20.500.12156.3/8926

 

Cancioneiro da Vaticana, com 1.205 cantigas de vários trovadores da lírica galego-portuguesa de fins do século XV.

Cancioneiro da Baena, contendo em torno de 1.445 poesias em castelhano e português.

Cancioneiro de Évora, do final do século XVI.

Cancioneiro de Luís Franco Correia, com poesias portuguesas quinhentistas.

Cancioneiro Fernandes Tomás, século XVII, com mais de 300 poesias.

Cancioneiro Geral ou de Resende, de 1516, com composições de cerca de trezentos poetas.

Em Portugal, também encontramos outras publicações de composições musicais populares, a exemplo de: Theophilo Braga, com Cancioneiro Popular, de Coimbra, em 1867, e Cantos Populares do Archipelago Açoriano, do Porto, em 1869; Pedro Fernandes Thomaz, com Canções populares da Beira, em 1896; Cesar das Neves e Gualdino de Campos, com Cancioneiro de Músicas Populares (vol. I, II e III), no Porto, em 1893, 1985 e 1898, respectivamente; Francisco Xavier d’Athaide Oliveira, com Romanceiro e cancioneiro do Algarve, noPorto, 1905; Pedro Fernandes Tomás, com Cantares do Povo, deCoimbra, em 1919; Alves Redol, com Cancioneiro do Ribatejo, em 1950; Michel Giacometti, com Cancioneiro Popular Português, de Lisboa, em 1981; Carlos Nogueira,com Cancioneiro popular de Baião (vol. I e II), de Braga, em 2011, e As rimas infantis portuguesas, também de Braga, em 2011.

Link de outros cancioneiros:

https://permalinkbnd.bnportugal.gov.pt/records/item/282125-cancioneiro-em-que-uao-ob-r-as-dos-milhores-poetas-do-meu-tempo-ainda-nao-empresas-e-treslasdadas-de

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De acordo com as professoras Idelette Muzart e Maria de Fátima, no início, “a palavra cantiga foi usada para designar uma coleção de cantigas de amigo, de amor e de escárnio e de mal-dizer que eram poemas líricos, compostos de redondilha maior e divididos em estrofes iguais” (1993, p. 30). Essa concepção foi ampliada para indicar qualquer poema feito para ser cantado. Segundo as autoras, a diferença da canção é porque a cantiga veicula uma conotação antiga, “percebida pelo informante de modo mais ou menos claro” (1993, p. 30).

Ainda segundo as autoras, no Brasil, “a cantiga foi tradicionalmente em quadras, com rimas simples ABCD ou alternadas ABAB” (1993, p. 30). As temáticas eram claramente de origem lusitana com “elementos líricos, distância, saudade, ciúme, aos quais o brasileiro acrescentava frequentemente tons humorísticos ou maliciosos” (1993, p. 30).

Com esses viéses, em 1903, o paraibano José Rodrigues de Carvalho publicou um cancioneiro, designado de Cancioneiro do Norte que, embora o título faça referência ao Norte, é, na verdade, do Nordeste.

Imagem de divulgação por Google

Cancioneiro do Norte

DISPONÍVEL NO LINK: https://www.bruceangeirasleiloeiro.com.br/peca.asp?ID=19693597.

 

Para ter acesso, na íntegra, à obra, podemos acessar abaixo:  

Clique aqui

 

Na coletânea se encontram composições com influências culturais indígenas e africanas de artistas negros, entre as quais figurou um poeta escravizado: o famoso Inácio da Catingueira. No referido cancioneiro, as composições poéticas eram de improviso e foram coletadas nos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Sobre as composições, encontramos comentários do organizador da obra, veiculando os valores da época. A obra, segundo o organizador, foi publicada como forma de “commemorar o Tri-Centenário da vinda dos primeiros portuguezes ao Ceará” (1903, p. 54), registrando a riqueza, hoje reconhecida, da poesia do povo nordestino.

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Quase um século depois, coordenado pelas professoras Idelette Muzart Fonseca dos Santos e Maria de Fátima Barbosa de Mesquisa Batista, com a colaboração de 15 pesquisadores e pesquisadoras (entre as quais está Fátima, uma das organizadoras) uma coletânea também de composições musicais orais da Paraíba foi publicada, agora com o nome de Cancioneiro da Paraíba. Além de conterem características diferentes, as cantigas foram colhidas de gerações passadas.

Com valores atualizados pelo próprio povo, a coletânea conta com 13 cantigas de ninar; 117 cantigas de brincar; 26 cantigas de folguedo; 42 parlendas; 29 cantigas religiosas; 8 orações e crenças; 7 abois e toadas; e 20 cantos políticos de costumes. É das cantigas de brincar que apresentamos as versões, uma vez que nossa infância foi marcada por algumas delas que se encontram nesse registro.

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É importante pontuar que também vamos encontrar outros registros de cantigas: em 1883, Silvio Romero publica Cantos Populares do Brasil. E, como registros musicados, também temos: Canções infantis, sob a direção de Paulo Tapajós, com cantigas do Rio de janeiro, em 1953; a gravadora Marcus Pereira grava discos de cantigas populares (Música Popular do Sudeste/Centro-Oeste (vol. 3), em 1974; Música Popular do Norte (vol. 1), em 1976; e Música Popular do Norte (vol. 4), também em1976); e o grupo de coral Madrigal Infantil de Montes Carlos, também grava, pela mesma gravadora, Cantigas de roda e canções infantis do Norte de Minas Gerais, em 1979 (Mattos, 2017).

 

A oralidade como modalidade de apresentação do cancioneiro

A oralidade é a primeira modalidade da linguagem usada para comunicar e interagir. De acordo com Paul Zumthor (1993) é com a oralidade, ou vocalidade, que a literatura tem origem. Para esse autor, “a voz foi então um fator constitutivo de toda obra que, por força de nosso uso corrente, foi denominada ‘literária’” (p. 9). O autor destaca três situações de cultura oral: a oralidade primária, a oralidade mista e a oralidade que se recompõe com base na escritura.

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Segundo Paul Zumthor, foi na oralidade mista, também designada vocalidade, que os poetas da Idade Média transmitiram seus poemas. Tratava-se de uma estratégia de produção da criação literária o emprego da voz entoada. Para isso, se organizava um espaço com plateia para quem o poeta cantava. Isto porque só é possível a realização da comunicação oral com a presença de um locutor (que nesse caso específico era o poeta) e do interlocutor (os ouvintes). Segundo o autor, a construção poética só era possível por meio dessa relação.

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É nesse contexto de oralidade que os cancioneiros de todos os tempos se instauram, encantando com melodias e valores do povo de cada época que, ao ouvir as cantigas, se identificavam e se identificam, reproduzindo-as ad infinitum a gerações seguintes, pela memória.

 

A memória musical popular de muitas vozes

As cantigas que compõem os cancioneiros de modo geral são recursos musicais de uma memória coletiva, ou seja, comum a uma nação, região, estado, cidade. Para destacar uma concepção de memória que esteja em consonância com a discussão que propomos, trazemos Le Goff (1990), para quem memória coletiva, para além de um depósito de lembranças, é um processo dinâmico, cujos elementos do passado são recuperados e ressignificados para pensar os valores presentes.

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É nesse contexto que a ideia de memória musical, a que nos referimos, está atrelada. Além das lembranças guardadas na mente e recuperadas pelas gerações que dão continuidade à existência de um povo, dos ritmos, das melodias desses discursos, estão presentes as letras que predominam, mas que também recebem ressignificações de acordo com o povo que delas toma posse.

Podemos considerar, pelas pesquisas, por exemplo, de Ricardo Mendes Mattos (2017), que as cantidas populares da tradição oral entoadas no Brasil é uma herança da tradição ibérica que, aqui chegando, recebeu um tratamento verbal e, consequentemente, semântico próprio da nova nação. É por isso que as versões de uma mesma cantiga podem ser encontradas em várias regiões do Brasil.

Um exemplo é a cantiga infantil, bastante cantada no Brasil, O Cravo e a Rosa, que narra a desavenças entre o cravo e a rosa. Encontramos, por exemplo, uma versão levantada em Sergipe, na obra Cantos Populares do Brazil (Volume I), reunidos por Sylvio Romério e publicado em Lisboa, em 1883.

 

O cravo tem vinte folhas,

A rosa tem vinte e uma,

Anda o cravo em demanda

Porque a rosa tem mais uma.

 

O cravo brigou co’a rosa

Debaixo de uma sacada;

O cravo sahiu ferido,

E a rosa espinicada.

 

Viva o cravo, viva a rosa,

Viva o palácio do rei;

Viva o primeiro amor

Que n’esta terra tomei!

 

O cravo cahiu doente,

A rosa o foi visitar;

O cravo deu um desmaio,

A rosa póz-se a chorar.

 

Link de acesso à obra: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4549

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A versão incompleta que segue é do Rio de Janeiro e foi extraída por Ricardo Mendes Mattos (1917) de Canções infantis, publicada em 1953, por Renato Tapojós.

 

VERSÃO CANTADA

O cravo brigou com a rosa

Debaixo de uma sacada

O cravo saiu ferido

E a rosa despedaçada

 

O cravo ficou doente

E a rosa foi visitar

O cravo teve um desmaio

E a rosa pôs-se a chorar.

 

A mesma versão, encontramos no Cancioneiro da Paraíba, organizado pelas professoras Idelette Muzart Fonseca dos Santos e Maria de Fátima Barbosa de Mesquisa Batista, em 1993. Melodia e letra prevalecem nas versões do Rio de Janeiro e da Paraíba.

Imagem – Cancioneiro da Paraíba por Google

 

  1. O cravo brigou com a rosa

Debaixo de uma sacada

O cravo saiu ferido

E a rosa despedaçada

 

  1. O cravo ficou doente

E a rosa foi visitar

O cravo teve um desmaio

E a rosa pôs-se a chorar

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O professor Ricardo Mendes Mattos afirma que outras versões podem ser encontradas como em Ciranda Infantil (Música Popular do Sudeste, vol. 3, 1974) ou em Palavra Cantada (1998). O desafeto entre ambos (cravo e rosa) também é tema da seguinte estrofe, extraída de As rimas infantis portuguesas, publicado em Braga, Portugal, no ano de 2011, por Carlos Nogueira.

O cravo bateu na rosa

E a açucena foi jurar;

Oh que lindo juramento

O meu jardim tem de dar!

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Assim como O Cravo e a Rosa, outras inúmeras versões, é possível encontrar em diálogo nos estados do Brasil e em Portugal. No exemplo que trouxemos, a temática da cantiga de brincar é a mesma (desavença entre um casal), embora, no fragmento acima, o nome rosa é substituído por açucena.

 

Referências

BRAGA, Theophilo. Cancioneiro Popular – coligido da tradição. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1867. 223 p.

BRAGA, Theophilo. Cantos Populares do Archipelago Açoriano. Porto: Typographia da Livraria Nacional, 1869. 478 p.

Canções infantis. Direção: Paulo Tapajós. Rio de janeiro: Carroussel Discos, 1953. 1 LP.

GIACOMETTI, Michel. Cancioneiro Popular Português. Lisboa: Círculo de Leitores, 1981. 334 p.

Ilumiara. Produção Musical: Leandro César. Belo Horizonte, 2015.

Madrigal Infantil de Montes Carlos. Cantigas de roda e canções infantis do Norte de Minas Gerais. Marcus Pereira Discos, 1979.

MATTOS, Ricardo Mendes. A poesia oral infantil brasileira e o cancioneiro popular português. RE-UNIR, v. 4, nº 2, p. 128-149, 2017.

Música Popular do Norte (vol. 1). Marcus Pereira Discos: 1976.

Música Popular do Norte (vol. 4). Marcus Pereira Discos: 1976.

Música Popular do Sudeste/Centro-Oeste (vol. 3). Marcus Pereira Discos: 1974.

NEVES, Cesar das; CAMPOS, Gualdino de. Cancioneiro de Músicas Populares (vol. I). Porto: Typographia Occidental, 1893. 306 p.

NEVES, Cesar das; CAMPOS, Gualdino de. Cancioneiro de Músicas Populares (vol. II). Porto: César, Campos e C., 1895. 302 p.

NEVES, Cesar das; CAMPOS, Gualdino de. Cancioneiro de Músicas Populares (vol. III). Porto: César, Campos e C., 1898. 305 p.

NOGUEIRA, Carlos. Cancioneiro popular de Baião (vol. I). 2. ed. Braga: Edições Vercial, 2011a. 286 p.

NOGUEIRA, Carlos. Cancioneiro popular de Baião (vol. II). 2. ed. Braga: Edições Vercial, 2011b. 592 p.

NOGUEIRA, Carlos. As rimas infantis portuguesas. Braga: Edições Vercial, 2011c. 104 p.

OLIVEIRA, Francisco Xavier d’Athaide. Romanceiro e cancioneiro do Algarve. Porto: Typographia Universal, 1905. 432 p. Palavra Cantada. Cantigas de roda – canções folclóricas do Brasil. Produção: Sandra Peres e Paulo Tatit. São Paulo: Selo Palavra Cantada, 1998. 1 CD.

REDOL, Alves. Cancioneiro do Ribatejo. Centro Bibliográfico, 1950. 200 p. ROMERO, Silvio. Cantos Populares do Brasil (vol. I). Lisboa: Nova Livraria Internacional: 1883. 286 p.

SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos; BATISTA, Maria de Fátima Barbosa de Mesquita. Cancioneiro da Paraíba. João Pessoa; GRAFSET, 1993. 382p.

THOMAZ, Pedro Fernandes. Canções populares da Beira. Figueira: Imprensa Lusitana: 1896. 221 p.

TOMÁS, Pedro Fernandes. Cantares do Povo. Coimbra: França Amado Editor, 1919. 124 p.

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

 

Por NAZARETH ARRAIS

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