Se se permiteres à apreciação,
Eu serei adubo à sua estesia.
De um contato muito breve e um encanto que me segue até hoje, é que escrevo sobre o maracatu como uma manifestação artístico-cultural que envolve dança, poesia e música numa dinâmica teatral encantandora. O maracatu nasceu se permitindo à apreciação por quem, pela sensibilidade, se mantém fértil ao encantar-se e emocionar-se diante das dinâmicas artístico-culturais que o espetáculo apresenta.
Nesta edição, trago um pouco, um recorte mínimo, dessa tradição que compõe o vasto tesouro cultural brasileiro e que é comum estar presente nas festas carnavalescas do país.
Entre memórias, ritmos e identidades: o tesouro cultural dos maracatus
O que significa maracatu?
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Maracatu Nação
Link: https://bcr.iphan.gov.br/midias-registro/fotografia-maracatu-nacao-7/, acesso em 05 abr. 2026.
Fonte: Fonte: IFHAN
Autoria: Tiago Guillen
Imagem de IFHAN por Tiago Guillen
Segundo João Wanderley Robeto Militão, compositor, cantor, carnavalesco, produtor cultural e militante, também chamado de Pingo de Fortaleza, em sua publicação Maracatu Az de Ouro: 70 anos de memórias, loas e batuques (2007), o significado da palavra maracatu pode derivar-se de “’maracatucá’, utilizada pelos brincantes dessa manifestação com o significado de ‘vamos embora’ ou ‘vamos debandar’, ou ainda, de ‘batuque’ e da ‘própria festa’” (p. 22). A ideia de ser advinda de “batuque” também é defendida por Roberto Benjamim em sua obra Folguedos e danças de Pernambuco (1989).
Entre outras possibilidades, também são discutidas pelo professor Adriano Carlos de Moura, em sua tese de doutoramento, defendida em 2016, a posição de Mário de Andrade, na obra Danças Dramáticas do Brasil (1982), destacando que a palavra maracatu teria origem ameríndia: primeiro poderia ser advinda de maracá, que é um instrumento de percussão indígena, e catu, que significa, em tupi, bom, bonito; segundo, seria advinda de marã, que significa guerra, confusão, e também catu, o que resultaria em guerra bonita.
Mesmo com essa incerteza etmológica, não podemos negar que o maracatu é uma festividade afro-brasileira de grande beleza em que o sicretismo artístico e religioso está presente. O sociólogo Mário Henrique Thé Mota Carneiro explica que, sob o ponto de vista dos folcloristas Câmara Cascudo, Mário de Andrade e Guerra Peixe, é possível observar uma relação dos maracatus com as “as festividades ligadas às Irmandades e confrarias de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos” (Souza, 2015, p.36).
Constituindo um acervo de memórias da cultura ancestral do povo preto escravizado no Brasil com elementos também da cultura nativa brasileira, o maracatu é hoje reconhecido, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
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Maracatu Nação: mais informações
Link: https://bcr.iphan.gov.br/midias-registro/video-maracatu-nacao/
, acesso em 05 abr. 2026.
Fonte: IFHAN
Memórias guardiãs da identidade ancestral no maracatu
O Maracatu, em si mesmo, pode ser considerado um acervo de memórias guardiãs da identidade ancestral, à medida que, na sua organização alegórica, encontramos símbolos, atores e rituais do povo africano, bem como elementos dos nativos brasileiros, como forma de manter vivos os valores desses povos.
De maneira viva e atuante, no Nordeste, encontramos maracatus em Pernambuco (o maracatu Nação ou de Baque Virado e o maracatu Rural ou Baque Solto), onde teve origem, na Paraíba, em Sergipe, em Alagoas e no Ceará. Além desses espaços, segundo Ângela da Silva Oliveira (2011), os maracatus Nação ou de Baque Virado e o maracatu Rural ou Baque Solto saíram do Nordeste e chegou a São Paulo onde se disseminou e se sustenta até hoje com artistas e amantes da cultura.
Para Ângela, alguns dos motivos para essa popularização, em Saõ Paulo, foram: busca para manter a originalidade da prática; o desenraizamento do Maracatu de Baque Virado; “a influência trazida pelo Movimento Mangue Beat” e a ida de participantes de Maracatu de Baque Virado de Recife para São Paulo nos anos 90 do séc. XX, que começaram a realizar oficinas de percussão no novo espaço (2011, p. 8).
Ainda com base nas pesquisas de Ângela da Silva Oliveira (2011), existem seis grupos de maracatus em São Paulo, a saber, “Bloco de Pedra (Escola Estadual Professor Antônio Alves Cruz – Sumaré), Cia Caracaxá (Universidade de São Paulo/USP – Cidade Universitária – Butantã), Cia Porto de Luanda (Itaquera), Ilê Aláfia (Núcleo Sócio Educativo Leide das Neves – Jabaquara), Nagô (Tendal da Lapa) e Quilombaque (Comunidade Cultural Quilombaque – Perus).” (2011, p. 8).
De maneira geral, os símbolos representativos da memória ancestral afro-brasileira passíveis de serem encontrados nos maracatus são diversos, embora limitados. Pela impossibilidade de referenciar todos, colocamos os mais comuns em Pernambuco, onde essa arte começa e se consolida. No maracatu Nação ou de Baque Virado, destacam-se: Calunga, Estandarte, Umbrela ou Pálio e Peixe com Estrela na Boca. No maracatu Rural ou Baque Solto, destacam-se Caboclo de Lança, Cocar e instrumentos Indígenas.
Na Paraíba, os Maracatu Nação Pé de Elefante e o Coletivo Maracastelo apresentam símbolos como: Calunga, Estandarte, Corte Real e Elefante no primeiro; e Calunga, sob a designação de mãe Edite, Rainha é a Mãe Lúcia Omideyn, e a dama do Paço no segundo. Segundo Marcelo Renan Oliveira de Souza (2015, p. 63), se sustentando nas informações de Vidal (1944), na Paraíba são raras e genéricas as informações sobre a temática, ficando mais limitada ao séc. XIX.
Em Sergipe, vamos encontrar o Maracatu Nação Pavão Dourado de Japaratuba, com a Calunga, o Cortejo Real, o Batuque ou Baque Virado, a Dama do Paço e o Estandarte. Marcelo Renan Oliveira de Souza (2015, p. 65) escreve que “O maracatu sergipano é uma expressão cultural festejada no interior de uma comunidade reconhecidamente quilombola, certificada pela Fundação Palmares, através da certidão de reconhecimento publicada no Diário Oficial da União, de 28 de julho de 2006.”
Em Alagoas, com o Maracatu Baque Alagoano, vamos encontrar a Calunga, o Rei e a Rainha e o Caboclo de Lança. Aqui, percebemos a influência não apenas do Maracatu Nação, mas também do Maracatu Rural especialmente com este último símbolo. Marcelo Renan Oliveira de Souza (2015, p. 67) explica que “No estado de Alagoas, os maracatus assemelham-se aos baques virados pernambucanos e se inspiram nesses para remontar seus grupos e desfiles na contemporaneidade.”
Podemos perceber que o símbolo central do maracatu Nação ou de Baque Virado é a Calunga, e, portanto, não podia estar ausente nos demais maracatus de mesma inspiração, não importando o lugar. Essa figura representa a rainha morta como símbolo da acestralidade real do povo africano.
O sincretismo artístico do maracatu
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A festa do maracatu
IMAGEM GERADA POR IA “usando GEMINI.AI, sob a direção de Nazareth Lima Arrais, Criada em 05/04/2026″
O maracatu, como representação festiva, agrega música, poesia e dança numa dinâmica teatral constituindo um verdadeiro espetáculo de sentidos e significados. Nesse evento, à mescla de ritmos africanos e indígenas é denominada de baque e cria uma identidade própria. Adriano Carlos de Moura, sobre o maracatu de Recife, de acordo com suas fontes, informa que o ritmo é harmonizado por uma orquestra constituída de trombone, tropete, clarinete e do Terno composto pelo bulbo, surdo, tarol, porca (cuíca) e gonguê.
Em sua pesquisa sobre maracatus, Jorge Luiz de Paula (2010, p. 32) pontua que enquanto o ritmo do maracatu pernambucano é um batuque festivo, a sonoridade do maracatu cearense incorpora a solenidade e a nostalgia como traços principais.
Harmonicamente conectada ao ritmo, a poesia é expressa por meio de loas, com versos geralmente de improviso cheios de rimas. O mestre canta temáticas que expressam a cultura ancestral, a vida e a morte, como ponto forte para provocar a emoção do cortejo. Cada manifestação traz os valores locais conectando o presente com o passado.
A dança do maracatu se hamomiza ao ritmo e à poesia: do mais dolente ao mais festivo, dependendo da tradição. Para Muniz Sodré (1988; p.89), “É pela dança que os saberes do culto são vivenciados, reatualizando o elo perdido com os ancestrais, restabelecendo, assim, a crença no sentimento de pertença.” No ritmo mais melancólico, a dança segue passos lentos com movimentos solenes, enquanto no mais festivo, a cadência dos passos é mais frenética, com ginga, giros e pulos.
O encontro entre a música, a poesia e a dança monta um quadro teatral que se realiza a céu aberto. O espetáculo se constrói para encenar a coroação dos reis e das rainhas do Congo em um desfile que simboliza a corte real, onde atores são caracterizados de acordo com o contexto. Pingo de Fortaleza (2007, p.31) explica que “No Ceará, o Maracatu é a festa musical e de cortejo das coroações inspiradas em todas estas manifestações. É fruto desses sonhos, desse teatro e dessa magia e acontece, prioritariamente, no carnaval.”
A re-existência afro-brasileira no maracatu
O maracatu, ao veicular os valores culturais predominantemente do afro-descente, representa um tesouro de memórias que revivem a cada evento como forma de resistir e existir, valorizando uma cultura que sofreu apagamento pelo colonizar e ainda sofre com o preconceito dos saudosistas do poder escravocrata.
As raízes africanas em um espaço de opressão histórica abre alas com autonomia e altivez em um terrritório onde forçadamente se naturalizaram, e, mesmo imersas a dores, semeiam beleza com brilho, cores, ritmos e movimentos num num desfile que recria práticas culturais dos antepassados. Por meio do maracatu, somos convidados a apreciar o reviver de acontecimentos e a dialogar com a religiosidade, a fé e as crenças sagradas de um povo que foi trazido ao Brasil e, com suas cores, enfeita e enriquece a tradição do país.
Os acontecimentos principais encenados pelo maracatu são: a Coroação do Rei do Congo; a frequência da Calunga; o Batuque e a Oralidade; e a organização das Nações.
A presença do Rei do Congo é a reafirmação da identidade e da excelência da realeza africana. Para Costa (1908, p. 226) “o maracatu é propriamente um cortejo régio, que desfila com toda solenidade inerente a realeza, e revestido, portanto, de galas e opulências.” De acordo com Guerra-peixe (1980, p. 15), os autores modernos concordam que o maracatu seja um cortejo real cujas práticas são meniniscências decorrentes das festas de reis negros, eleitos e nomeados na instituição do Rei do Congo.” Nos tempos atuais em que a consciência de valorização de todas as etnias vem ocupando um espaço de combate ao racismo, a coroação do Rei do Congo vai além de uma simples encenação para se configurar como símbolo de re-existência.
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Coroação do Rei e da Rainha do Congo
IMAGEM GERADA POR IA “usando GEMINI.AI, sob a direção de Nazareth Lima Arrais, Criada em 05/04/2026″
Jorge Luiz de Paula (2013, p. 19) explica que, de acordo com Marina Souza (2006), historiadora, quando os escravizados “chegaram à Europa no século XV, tiveram contato com a religião católica em Portugal, e passaram a fazer associações entre os santos católicos e as entidades africanas.” E, em razão de a imagem de Nossa Senhora do Rosário “possuir um colar de rosas (rosário) semelhante ao colar usado por Ifá que não é propriamente uma divindade (Orixá), é um porta-voz de Orunmilá e dos outros Orixás em um sistema de adivinhação da cultura yorubá”, fizeram um associação com objetos da religiosidade africana.
Em razão dessa associação, os africanos levados à Europa se tornaram devotos de Nossa Senhora dos Rosário. Dessa forma, nasce a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e ergueream igrejas em homenagem à Santa, definindo o dia 07 de outubro para homenageá-la (Paula, 2013, p. 20). Todo ano, nesse dia, os escravizados africanos realizavam “o ritual de coroação do rei e da rainha da irmandade, relembrando a coroação dos reis africanos do Congo.” Com base nesse evento e a partir dele, originaram-se Auto dos Reis de Congo, o Congado e depois o Maracatu. Para o autor, de acordo com José Ramos Tinhorão, “os africanos da Irmandade tomavam como modelo a, ora centenária, confraria congênere de Lisboa, até para realizar as festas de coroação de Rei do Congo.”
Da mesma forma, a Calunga, que é uma boneca negra de madeira ou de pano carregada pela Dama do Paço, representa a rainha morta como símbolo sagrado da ancestralidade africana. De acordo com Adriano Carlos de Moura (2016, p. 91) “A calunga ou boneca é um elemento totêmico, sagrado, que representa a entidade espiritual protetora do maracatu.” Esta é uma razão por que todos os integrantes da encenação a protege. Segundo o mesmo autor, o temo calunga na língua quibundo de Angola, cujo plural pe lunga ou malunga. E, por extensão, “Malunguinho representa a própria idntidade espiritual”.
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Dama do Paço com a Calunga
, acesso em 05 abr. 2026.
Fonte: Fonte: IFHAN
Autoria: Isabel Guillen
O Batuque é o som dos tambores que, em combinação com as poesias orais, representam a voz dos ancestrais. Eu diria que o batuque e todo sincretismo de arranjos artísticos representam uma voz que rasga o tempo e chega aos nossos dias com esperança de equidade para todos e todas os(as) afro-descendestes sobreviventes da diáspora africana e que se junta ao nativo brasileiro pelo direito de existir.
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Batuque
Link: https://bcr.iphan.gov.br/wp-content/uploads/tainacan-items/65998/70047/Grupo-2-Linda-Flor-Desfile-das-Agremiacoes-do-Grupo-Dois-Maracatu-Nacao-Linda-Flor-Foto-Guilherme-Labonia-Acervo-Fundarpe-Iphan-COREG-scaled.jpg. Acesso em 05 abr. 2026.
Fonte: Fonte: IFHAN
Autoria
Guilherme Labonia
O sistema de organização como Nações dos maracatus dialoga com o sistema de clãs e grupos étnicos africanos. Organizarem-se dessa maneira fortalece a origem e a cultura negra como forma de re-existirem e fortalecerem-se a cada dia.
Referências
BENJAMIM, Roberto. Folguedos e danças de Pernambuco. Recife: Fundação Cultura da Cidade do Recife, 1989.
MOURA, Adriano Carlos de. O espetáculo semiótico do Maracatu Rural da Zona da Mata Norte pernambucana. Tese (Doutorado em Letras)- Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2016.
MILITÃO, João Wanderley Roberto (Pingo de Fortaleza) Maracatu Az de Ouro: 70 anos de memórias, loas e batuques. Fortaleza: OMMI: Solar, 2007.
PAULA, Jorge Luiz de. Maracatu do Ceará: contribuições para o estudo de sua configuração. Salvador: UFBA, 2013.
SODRÉ. Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Petrópolis: Vozes, 1988.
SOUZA, Marcelo Renan Oliveira de. Maracatus de Fortaleza: entre tradições, identidades e a formação de um patrimônio cultural Rio de Janeiro, 2015.
TINHORÃO, José Ramos. As festas no Brasil colonial. São Paulo: Editora 34 Ltda, 2000.
VIDAL, Ademar. “A tradição do maracatu”. Atlântico, Lisboa, n. 5, p.41-48, 1944. Disponível em: Jangada Brasil: a cara e a alma brasileiras. https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/article/view/18. Acesso em: 04 abril 2026.
Por NAZARETH ARRAIS
