NOSSA LITERATURA – Parlendas na educação: ancestralidade, ludicidade e resistência cultural

NOSSA LITERATURA – Parlendas na educação: ancestralidade, ludicidade e resistência cultural

Estimados leitores,

Eis-me aqui com mais uma edição da Coluna Nossa Literatura – virtudes poéticas na The Bard, revista internacional, dedicada às palavras que acolhem, reconhecem e incomodam, uma vez que nos provocam a reflexão e reconhecimento de nossa linguagem.

Nesta 39ª edição, não mais nem menos importante que as edições anteriores, mas muito especial, pois encontro-me em meu espaço de fala, quando os convido ao pensamento e à reflexão de nossas práticas, enquanto educadores (família e escola).

Acredito na história que defende a educação e a formação do sujeito, garantindo-lhe o direito de aprender bem e viver com sabedoria e afeto. Assim como também acredito que nosso crescimento depende das heranças que carregamos em nossa história cultural, e dependemos necessariamente de uma evolução ancestral, para termos um futuro livre do apagamento de nossa identidade. 

Esta edição me permitiu trazer esse contexto e, nele, resgatar as parlendas para defesa desse recurso literário, linguístico e cultural nas fases da infância, principalmente nas escolas, onde as crianças podem ter acesso dirigido a esse recurso, também como instrumento de aprendizagem.

Reforço minha satisfação por seguir assinando essa coluna, bem como meus agradecimentos à equipe editorial da The Bard, e a vocês por me lerem.

Cordial abraço, 

Márcia Neves | colunista

 

Parlendas na educação: ancestralidade, ludicidade e resistência cultural

 

Palavras não andam sozinhas, nem se findam num papel qualquer – Márcia Neves*

Defino a infância como um verdadeiro castelo, por nela construirmos a base para uma vida sólida, sensível e criativa. Ou seja, é um solo onde iremos pisar por toda a vida. É o mundo simbólico das coisas, em processo, em construção. É quando a criança dá vida, por meio de suas idealizações, a tudo o que está ao seu alcance. Nesse meio entre significante e significado, a imaginação protagoniza a vida, por permitir à criança experimentar ações e emoções, criando narrativas e compreendendo a realidade a partir de suas sensações. Logo, reconhecer que a infância é um direito fundamental, inclusive garantido por leis que asseguram o direito à vida, à educação, à saúde, à segurança e ao brincar (Constituição de 1988 e ECA, por exemplo), é uma necessidade e responsabilidade de todos que lidam com crianças, inclusive e principalmente, escola e família.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Adriana Magalhães, Criada em 05/08/2026″

 

Consoante a citação do psiquiatra Stuart Brown, “brincar não é um luxo, é uma necessidade biológica”, é possível pensar que a criança que brinca desenvolve habilidades que lhe favorecerão ao longo da vida. Nesse campo do brincar, inclui-se a percepção dos sons, como um recurso potente para o desenvolvimento da fala e formação da linguagem desde seus primeiros anos de vida. Exemplo disso é a emissão dos primeiros sons, muitas vezes já por sílabas, relacionados às necessidades básicas de sobrevivência e socialização, como pedir água ou comida, em que a criança aprende pelo reconhecimento simbólico, quando está em contato com o objeto e o associa às suas necessidades, e também pela familiaridade com as palavras que ouve no dia a dia e influência que naturalmente recebe de pessoas com quem convive.  

Nesse contexto, a arte, em suas múltiplas linguagens, interage profundamente com o processo de desenvolvimento da criança, tendo em vista que, em qualquer uma delas, a criança se manifesta pela linguagem, seja na pintura, na dança, na música, na leitura, na contação de histórias, na dramatização, etc., pois brincar com as palavras é uma ferramenta que amplia a percepção de si e do mundo, valorizando e lapidando, dessa forma, o processo de criar, imaginar, de dar sentido às coisas.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Adriana Magalhães, Criada em 05/08/2026″

 

Uma das formas que o ser humano encontrou, desde muito antes da Grécia antiga, para manifestar seus pensamentos, transmitir conhecimentos e ensinar valores às gerações mais novas, foi usando a oralidade. Eram comuns entre as famílias as cantigas de roda, as fábulas, os versos, anedotas, parlendas etc., o que parece se enfraquecer ao passar dos anos.

Entre as manifestações da cultura popular que atravessam gerações, destaco as parlendas, como recurso indispensável, que jamais devem ser deixadas de lado no ambiente escolar, principalmente na educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental.  Inclusive por terem suas características presentes em muitos outros textos, por serem dotadas de rima, ritmo, musicalidade, humor, memória, afeto, repetição etc., são textos pequenos, com linguagem simples, assim, facilitando a memorização. Nas parlendas, a imaginação se retroalimenta de palavras brincantes, marcadas pelo ineditismo, em que os sons importam tanto quanto os sentidos, uma brincadeira que confere a liberdade de repetir, errar, recriar, favorecendo o campo de desenvolvimento da linguagem por meio, principalmente, da escuta, da atenção e da sensibilidade. Logo, um recurso para todas as idades, mesmo antes da alfabetização.

Além disso, são brincadeiras sonoras que aproximam corpo e alma, uma vez que a arte das palavras envolve a arte do corpo, explorando sons e movimentos, como as palmas, os passinhos, os movimentos em círculos etc., o que nos lembra que, dessa forma, desde a primeira infância, a criança aprende a se manifestar com pertencimento e reconhecimento de si, usando o recurso mais potente de expressão, além das palavras, o corpo. O que será mais adiante útil para o reconhecimento das linguagens verbal e não verbal.

Outro dia, ainda este ano (2026), voltando da escola com meu filho de apenas 4 anos, fui pega de surpresa quando disse que me contaria uma parlenda. E começou: “Jacaré com catapora toma banho de hora em hora, a coruja é uma senhora e toma suco de amora. ” Foi uma festa entre nós. Não pude esconder a satisfação e ele, a novidade. Fiquei surpresa por saber que na escola onde ele estuda há professores que seguem acreditando na força da cultura popular e utilizam a parlenda como recurso amplo de criação. Pois a escola é mesmo um espaço potente para as crianças terem contato com recursos educativos, que exploram suas capacidades de desenvolvimento cognitivo e os salvam do mundo das telas viciosas, por serem também entretenimento entre as crianças. Além disso, parlendas estão no nicho dos textos que podem ser considerados patrimônio cultural, uma vez que preservam modos de falar, brincar e imaginar de diferentes povos e comunidades.  O que me leva a dizer, como professora atuante, especializada em Alfabetização e Letramento, que o brincar com a linguagem por meio da cultura popular, como as parlendas, é também um reconhecimento de nossa ancestralidade.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Adriana Magalhães, Criada em 05/08/2026″

 

De fato, palavras não andam sozinhas, nem se findam em papel qualquer. Quando uma criança brinca com palavras, inventa mundos. Inventando mundos, a criança floresce a imaginação, movimenta a cultura, ressignifica a vida, ou seja, quando a arte acolhe as infâncias, a vida ganha liberdade e o aprendizado acontece. Parlendas fazem parte do brincar, do descobrir e do se encantar. E tudo que advém delas, todo repertório que se cria em torno dessa arte e/ou a partir dela, celebra a capacidade humana de dar sentido às coisas.

Em uma sociedade contemporânea, altamente marcada pela tecnologia e mecanização, em que o tempo se perde por não o perceber, torna-se evidente a urgência de resgatar práticas de convívio entre famílias, escolas e comunidades, a fim de salvar nossas crianças de vícios cientificamente comprovados (como o uso exagerado de telas) que prejudicam o desenvolvimento em todos os campos, apresentando-lhes um mundo possível entre sonho, realidade e entretenimento. Nesse universo, encaixam-se perfeitamente o resgate e o fortalecimento de culturas populares e, pensando nas infâncias, obviamente, a exploração de gêneros das tradições orais, como as parlendas, também pela valorização da linguagem poética, pelo poder de interpretação que possui.

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*Escritora, professora, psicóloga educacional (em formação), poeta, haijin e colunista nas revistas The Bard e Strophe.

Por MÁRCIA NEVES

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