
Filme: Ayrton Senna por Adriane Galisteu
Acho que um dos momentos mais tristes documentados pela história foi a morte precoce de Ayrton Senna. Eu era adolescente e lembro com detalhes daquela manhã de domingo. Algo que eu também nunca esqueci foi a presença de Adriane Galisteu no velório do Ayrton. Foi chocante a forma como ela foi tratada e excluída pela família.
O documentário Adriane Galisteu: Meu Ayrton, disponível na HBO Max, é um relato íntimo e emocional sobre o relacionamento entre Adriane Galisteu e Ayrton Senna. Confesso que o que mais me comoveu foi a maturidade em que Adriane fez esse documentário. Em nenhum momento ela destilou ódio. Adriane foi extremamente cirúrgica em contar, na sua própria visão e interpretação, como se sentiu e como conviveu com o fato de se sentir extremamente sozinha.
Mais do que revisitar um romance que marcou os anos 1990, a produção propõe um olhar pessoal sobre memória, luto e reconstrução de narrativa.
Galisteu revisita fotos, cartas, bastidores e momentos pouco conhecidos do período em que viveu ao lado de Senna. O documentário humaniza a figura do tricampeão mundial de Fórmula 1, mostrando não apenas o ídolo nacional, mas o homem apaixonado, afetuoso e reservado.
Ao mesmo tempo, o documentário aborda a pressão da opinião pública e o julgamento enfrentado por Galisteu após a morte do piloto, em 1994. A narrativa toca em temas como silenciamento, machismo e disputa de memória.
Com formato predominantemente intimista, o documentário aposta em depoimentos diretos e registros pessoais. Não se trata de uma biografia tradicional de Senna, mas de um ponto de vista específico: o dela.
O filme questiona quem tem o direito de contar uma história e como narrativas oficiais podem excluir experiências afetivas.
Ao assumir sua versão dos fatos, Galisteu resgata não apenas o relacionamento, mas sua própria trajetória. O documentário também dialoga com a construção do mito de Senna e com o peso simbólico que ele carrega no imaginário brasileiro.
O documentário deixa claro que toda história tem dois lados, e nenhum deles deve ser ignorado.

Por CLAUDIA FAGGI
