Recapitulação
Capítulo 7: A Vida de Luísa
Revelamos o passado de Luísa: uma tradutora freelancer de 28 anos que sempre se sentiu desconectada da própria vida, como se assistisse tudo “através de um vidro”. Após as revelações sobre Daniel, ela liga para Sofia, sua melhor amiga psicóloga. Sofia ouve a história com ceticismo profissional, sugerindo que Daniel pode ser apenas muito observador ou estar inconscientemente manipulando Luísa. Sofia aconselha cautela, mas também reconhece que Luísa merece ser feliz. Luísa reflete sobre sua coleção de faróis em miniatura, símbolos de sua vida solitária “em uma torre”, observando os outros de longe. O capítulo termina com ela ligando para Daniel, propondo que no jantar sejam apenas “duas pessoas normais”, sem dons ou destinos, ela quer conhecer o homem real, não o visionário.
Capítulo 8: Investigação
Luísa acordou na quarta-feira com uma determinação que não sentia há anos. As palavras de Sofia ecoavam em sua mente: “Conheça a pessoa por trás do mistério.” Se ia se entregar a essa história impossível, precisava ter certeza de que conhecia o homem real, não apenas a lenda que ele carregava.
Decidiu fazer o que fazia de melhor: pesquisar.
Sentou-se ao computador com uma xícara de café e começou a investigar Daniel Carvalho. Não para desmascarar uma farsa, mas para entender quem ele realmente era quando não estava escrevendo sobre o futuro.
A busca inicial revelou pouco: um perfil discreto no LinkedIn indicando trabalho como revisor freelancer, algumas menções em projetos editoriais, nada nas redes sociais. Daniel parecia viver deliberadamente nas sombras do mundo digital.
Mas Luísa era persistente. Mudou de estratégia.
Às dez da manhã, estava na porta do Café Passagem.
— Luísa! — Dona Carmen, a proprietária, sorriu ao vê-la. — Que bom te ver de novo. Vai querer o de sempre?
— Na verdade, queria conversar com você, se tiver um tempinho.
Carmen era uma mulher de sessenta anos, cabelos grisalhos sempre presos em um coque, que havia herdado o café do marido falecido. Conhecia cada cliente regular pelo nome e tinha memória de elefante para detalhes.
— Claro, querida. Senta aí que já trago seu chá.
Quando Carmen voltou com a bandeja, Luísa respirou fundo.
— Dona Carmen, o Daniel… há quanto tempo ele frequenta aqui?
— Ah, o Daniel! — Os olhos de Carmen se iluminaram. — Uns três anos, mais ou menos. Sempre muito educado, pontual. Todo domingo às 10h12, como um relógio suíço.
— E ele sempre… escrevia?
— Sempre. Chegava com aquele caderno debaixo do braço, pedia o café sem açúcar, e ficava lá escrevendo por mais de uma hora. Nunca incomodava ninguém, nunca falava ao telefone. Um rapaz muito reservado.
— Ele já comentou sobre o que escrevia?
Carmen hesitou, como se estivesse decidindo quanto revelar.
— Uma vez, faz uns dois anos, ele estava meio abatido. Eu perguntei se estava tudo bem, e ele disse uma coisa estranha: “Estou esperando alguém que ainda não chegou.” Pensei que fosse um encontro marcado, sabe? Mas ele continuou: “Ela vai aparecer aqui, eu sei. Só não sei quando.”
Luísa sentiu um arrepio.
— Ele disse mais alguma coisa?
— Disse que escrevia sobre ela. Sobre uma mulher que conheceria aqui no café. Achei meio… romântico, sabe? Como se ele estivesse escrevendo uma história de amor.
— E a senhora acreditou?
Carmen riu.
— Querida, depois de quarenta anos servindo café, você aprende que todo mundo tem suas manias. Uns leem jornal, outros fazem palavras cruzadas. O Daniel escrevia sobre uma mulher imaginária. Não me parecia mais estranho que qualquer outra coisa.
— Mas então eu apareci.
— E como apareceu! — Carmen se inclinou, conspiratória. — No primeiro domingo que você veio, eu vi o Daniel te observando. Quando você se aproximou da mesa dele, pensei: “Pronto, agora ele vai descobrir que a vida real é diferente da fantasia.”
— E o que aconteceu?
— Ele ficou branco como papel. Depois vermelho como tomate. E então… — Carmen sorriu — então ele sorriu de um jeito que nunca tinha visto antes. Como se tivesse encontrado algo que procurava há muito tempo.
Luísa absorveu a informação. A versão de Carmen confirmava a de Daniel, mas de uma perspectiva externa.
— Dona Carmen, posso fazer uma pergunta indiscreta?
— Pode.
— A senhora acha que o Daniel é… equilibrado? Mentalmente, digo.
Carmen considerou a pergunta seriamente.
— Olha, querida, eu já vi de tudo neste café. Gente que fala sozinha, que vê coisas que não existem, que inventa histórias malucas. O Daniel nunca me pareceu desequilibrado. Excêntrico, talvez. Mas sempre foi gentil, respeitoso, pagava em dia. E principalmente… — ela tocou o braço de Luísa — ele nunca tentou convencer ninguém de nada. Ficava no canto dele, escrevendo, sem incomodar.
— Até eu aparecer.
— Até você aparecer. E aí, pelo que vejo, vocês dois se encontraram de verdade.
Depois de deixar o café, Luísa decidiu visitar a editora onde Daniel trabalhava ocasionalmente. Havia encontrado o endereço em um dos projetos listados em seu perfil profissional.
A Editora Meridiano ficava em um prédio antigo no centro, com corredores estreitos e o cheiro característico de papel e tinta. A recepcionista, uma jovem de vinte e poucos anos, a direcionou para o departamento editorial.
— Daniel Carvalho? — O editor-chefe, um homem de meia-idade chamado Roberto, franziu a testa. — Claro que conheço. Excelente revisor. Trabalha conosco há uns cinco anos.
— Como ele é como pessoa?
Roberto pareceu surpreso com a pergunta.
— Você é jornalista? Polícia?
— Não, não — Luísa se apressou a explicar. — Sou… uma amiga. Estou tentando entender melhor quem ele é.
— Ah, entendo — Roberto sorriu. — Bom, o Daniel é um dos profissionais mais confiáveis que conheço. Entrega sempre no prazo, trabalho impecável, nunca dá problema. Meio solitário, talvez, mas não no sentido antissocial. Apenas… reservado.
— Ele já comentou algo sobre… habilidades especiais?
Roberto riu.
— Habilidades especiais? O Daniel tem um olho excepcional para erros que outros revisores perdem. É quase como se ele soubesse onde procurar antes mesmo de ler. Mas isso é talento profissional, não magia.
— Ele já previu alguma coisa? Eventos, mudanças na empresa?
— Agora que você menciona… — Roberto pausou, pensativo. — Há uns dois anos, ele sugeriu que não aceitássemos um projeto específico. Disse que tinha “uma sensação ruim” sobre o autor. Achamos estranho, porque o projeto parecia lucrativo. Mas seguimos a intuição dele.
— E?
— Três meses depois, o autor foi preso por fraude. Se tivéssemos publicado o livro, teríamos perdido muito dinheiro e credibilidade.
Luísa sentiu o coração acelerar.
— Isso aconteceu outras vezes?
— Algumas. Pequenas coisas. Ele sugeria mudanças de cronograma que sempre se mostravam acertadas, evitava projetos que depois davam problema. Pensávamos que ele era apenas muito intuitivo.
— E agora? Ele ainda faz essas… sugestões?
— Curiosamente, não. Nas últimas semanas, ele parece diferente. Menos… como posso dizer… menos como se estivesse sempre um passo à frente. Mais presente, se é que isso faz sentido.
Fazia todo o sentido.
À tarde, Luísa visitou a biblioteca municipal, onde Daniel havia mencionado passar muito tempo durante a adolescência. A bibliotecária-chefe, Dona Marta, lembrava-se dele perfeitamente.
— O Daniel! Claro que lembro. Vinha aqui quase todo dia depois da escola, dos doze aos dezoito anos. Sempre muito educado, muito curioso.
— Sobre o que ele pesquisava?
— De tudo um pouco. História, filosofia, ciências. Mas tinha uma obsessão particular com livros sobre tempo, percepção, fenômenos inexplicados. Li alguns dos livros que ele pegava emprestado, por curiosidade. Coisas sobre física quântica, parapsicologia, relatos de experiências extrassensoriais.
— Ele comentava por que se interessava por esses assuntos?
— Uma vez, quando tinha uns quinze anos, ele me perguntou se eu acreditava que algumas pessoas podiam “ver” coisas antes de acontecerem. Disse que era para um trabalho escolar, mas percebi que era mais pessoal.
— E o que a senhora respondeu?
— Que o mundo era cheio de mistérios, e que manter a mente aberta era sempre uma boa ideia. Ele sorriu e disse que esperava que eu estivesse certa.
— Ele parou de vir aqui quando?
— Gradualmente, depois que entrou na faculdade. Mas sempre que o encontro na rua, ele para para conversar. Um rapaz muito especial, aquele Daniel.
No final da tarde, Luísa estava de volta ao seu apartamento, organizando mentalmente tudo que havia descoberto. Cada pessoa com quem conversara confirmava a mesma coisa: Daniel era exatamente quem dizia ser. Não havia sinais de desequilíbrio, manipulação ou farsa.
Mais que isso: havia um padrão consistente de comportamento que sugeria que ele realmente possuía algum tipo de intuição excepcional sobre eventos futuros. E esse padrão havia mudado recentemente — exatamente quando ele conheceu Luísa.
Às seis da tarde, o telefone tocou.
— Oi — disse Daniel. — Como foi seu dia?
— Interessante — Luísa respondeu. — Muito interessante.
— Quer contar?
— Pessoalmente. Ainda vale nosso jantar?
— Claro. Passo te buscar às oito?
— Perfeito.
Quando desligou, Luísa se olhou no espelho. A mulher que a encarava de volta parecia diferente da que havia acordado naquela manhã. Mais confiante, mais decidida.
Havia saído em busca de evidências que pudessem desmascarar Daniel ou confirmar suas suspeitas. Em vez disso, encontrara algo muito mais valioso: a confirmação de que o homem por quem estava se apaixonando era exatamente quem dizia ser.
Agora, restava apenas uma pergunta: estava pronta para aceitar que o impossível podia ser real?
Olhando para a caixa de faróis em miniatura sobre a cômoda, Luísa sorriu. Talvez fosse hora de parar de ser a guardiã solitária da torre e se permitir ser resgatada.
Ou melhor ainda: talvez fosse hora de descobrir que não precisava ser resgatada. Precisava apenas encontrar alguém disposto a construir uma nova torre junto com ela.
Por J. B WOLF

