Apresentação
É comum que pessoas com algum tipo de neurodivergência como TEA ou TDAH se representem com cores incomuns, psicodélicas ou mesmo como monstrinhos. Já vi isso muitas vezes entre autistas artistas, e eu mesmo faço isso às vezes, e talvez isso ocorra por nos sentirmos diferentes das outras pessoas. Hoje eu trago para os leitores os Contos de Lá Longe (Mogüe, 2025), um livro de um amigo, autista, que conheci na Bienal do Rio em 2025.
Neste livro, um camaleão chamado Vândalo é lembrado como um tipo de andarilho colecionador de histórias, um personagem simpático que contou ao autor do livro histórias de suas andanças por terras estranhas e conversas com monstrinhos simpáticos. Lembro bem quando ouvi do autor “gente comum já tem muito, por isso eu desenho monstrinhos!” Na verdade, os monstrinhos desse livro também são gente, como veremos adiante.

Imagem – Livro Contos de Lá Longe – Mogüe
Então, vamos aos Contos de Lá Longe, ditados pelo camaleão Vândalo e escritos por meu amigo Mogüe!
Só avisando, vai ter spoiler…
Estrutura da obra
Contos de Lá Longe é, como indicado no título, uma antologia de contos que, segundo Mogüe, foram narrados pelo camaleão Vândalo que, de acordo com o próprio camaleão, nasceu há eras, em um quintal onde havia balanço, goiabeira, cama elástica e crianças brincalhonas. Na orelha do livro, conhecemos o curador da antologia: Azaka, o imortal. Antes entendido como vilão ou bandido, mas agora reconhecido como apreciador de arte com aparência incomum.

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Os contos são bem ilustrados, sempre em preto e branco, pois o curador Azaka assim prefere (fora que isso torna a impressão mais barata). Dentre as imagens, temos um mapa (que serve de índice dos contos), cenários, figurinhas, cartas escritas à mão e personagens dos mais maluquinhos, pois os entes que vivem em lá longe são monstrinhos simpáticos, cavaleiros, dragões, animais antropomorfizados e outras tantas figuras esdruxulamente atrativas. Mais uma vez, repetindo as palavras do meu amigo “gente comum já tem muito, por isso eu desenho monstrinhos!” Se é permitido um trocadilho: Contos de Lá Longe passa longe de uma estrutura aristotélica de narrativa.

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Contos, cantos e encantos
Mogüe começa apresentando o camaleão Vândalo como um ser viajante, que gosta de conhecer histórias e contá-las. Logo em seguida, ele apresenta os lugares de Lá Longe, na forma de um mapa e, finalmente, a primeira história: o nascimento de Vândalo, no quintal de Lautaro, a tartaruga que ficava o tempo todo embaixo do balanço e não deixava ninguém balançar. Depois de aprender com as crianças no quintal como ser curioso e brincalhão, Vândalo resolveu viajar por lá longe.

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A próxima história é em um lugar chamado Ansíbanasi, onde dois diplomatas se encontram e se cumprimentam. Eles estão nus, pois “os diplomatas sempre se reúnem nus”. Na base da página, temos a imagem de uma menina questionando que talvez ela tenha nascido sem um roteiro de como funciona o mundo.
A história seguinte é sobre uma civilização de miquinhos. Os saguis de tufo branco, que viviam em cavernas escavadas no subsolo, e os saguis de tufo preto, que viviam nas árvores. Os das cavernas receberam uma criatura semelhante a um lagarto amarelo, chamado Gaspar, que não era bem visto pelo povo dele, mas era uma alegre novidade para os miquinhos. Já os micos das árvores tiravam fotos de si mesmos, sempre revivendo as fotos e pensando no que as pessoas achariam de tais retratos.

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A terceira paragem de Vândalo é uma localidade chamada Manem. Lá as pessoas pareciam humanas, mas só pareciam. O camaleão conversou com uma anta que cantava e se banhava em uma poça de lama, e ela afirmou que talvez, ninguém na cidade fosse humano de verdade, pois todos usavam máscaras e disfarces para parecerem humanos e, como a anta não se disfarçava, vivia à margem da sociedade.
Adiante, Vândalo fala de uma terra, na qual gigantes usavam mochilas onde estavam escritas suas funções como: rainha, príncipe, princesa e duque; de outro lugar chamado Borrascal, onde um velhinho com capacete de escaravelho vivia com um cachorro e alguns livros e parecia não precisar de mais nada; de uma espécie de lava-jato/SPA de dragões, chamada Anatópolis; de um pântano, onde voluntários usavam serrotes e ácido muriático para gentilmente limpar as unhas dos monstros; de um cantinho onde um bichinho peludo protegia uma pequena árvore; e, ainda, de um lugar onde havia uma espécie de pequeno cassino ou casa de jogos, florestas e um copo de vidro com um monstrinho assustado dentro.
O contador de histórias então se lembra de uma terra chamada Santinga, onde uma comunidade de porquinhos da índia “conquista” cidades inteiras em marcha, colocando sua bandeira de vitória no ponto mais alto da cidade, sem nunca deixarem mortos ou feridos, pois não lutam com ninguém, e até torcem para que a bandeira seja arrancada, de forma que eles possam vir e conquistar o lugar no dia seguinte.
Em Fiestas, Vândalo vê um concurso de “o que é melhor”. Lá os concorrentes são comparados uns com os outros e avaliados sobre o que eles têm de melhor, segundo os preconceitos dos habitantes locais. Os vencedores não odeiam competir em outros anos, deixando chance para que outras pessoas vencerem também. O 1º, o 2º e o 3º lugares foram respectivamente uma anta falante, um rapaz com cabeça de tucano e um homem chamado Pedro.

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Na página seguinte, há um relato sobre uma caverna cujas paredes falavam sobre um nobre cavaleiro de aço que morava ali e protegia jazidas de petróleo, mas todos os monstros e dragões que o visitavam em busca de um duelo tiveram a gentileza de deixar vencê-lo, pois o tal cavaleiro não era tão forte assim.
Uma comunidade de lagartos com pernas compridas e dedos longos saltava com passos de balé por sobre um muro para ter acesso à praia e quem não fosse normal (ou seja, quem não seguisse as regras de postura, salto e vestimenta) seria malvisto na praia. O lagarto Roy, com postura meio encurvada e dedos enrolados, conversou sobre isso com Vândalo.

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Já em um dos pântanos, o pequeno lagarto pegou, na mesa de um delegado avesso às discussões filosóficas, duas cartas de uma pomba. Uma delas, o leitor pode ler na encadernação do volume de Contos de Lá Longe, e a outra está em um pequeno envelope que ele recebe junto com o livro.
Na penúltima paragem narrada no livro, Vândalo está no Bosque dos Mil Aromas e conversa com Goliat, uma criatura semelhante a um lagarto com um belo bigode. Na conversa, Goliat explica que os gnomos têm chapéus amarelos e têm cheiro de gnomos. Quando interrogado sobre qual é o tal cheiro de gnomo, ele responde que gnomos cheiram a rosas.

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Por fim, o camaleão está em um lugar chamado 1Quintal, que tem o mesmo nome do selo editorial do livro em questão. Este é o lugar onde ele conheceu Mogüe e, depois de várias horas de conversa, compilou as histórias de Vândalo em um livro (Contos de Lá Longe) e fez um retrato em grafite do amigo camaleão.
Seguem-se algumas páginas com fotos das viagens de Vândalo pelas terras de Lá Longe.

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Complementos
A sensação de “desencaixe” que um neurodivergente sente é bem comum e, em muitos casos, provoca o mascaramento de comportamentos fora do esperado pela sociedade, como no caso da tartaruga que, em vez de sentar no balanço, prefere ficar embaixo dele; a menina em Ansíbanasi, que não entende os diplomatas nus; o lagarto amarelo Gaspar, com pouco prestígio em sua comunidade, mas acolhido na dos miquinhos; a anta que vivia sozinha por não esconder suas maneiras, e os habitantes de Manem, todos mascarados; os gigantes que usavam suas identificações em mochilas; o velhinho com capacete de besouro; os monstros do pântano, que agradeciam os cuidados vindos dos voluntários; o cavaleiro de aço molenga ajudado por dragões gentis; o lagarto Roy que não se encaixava nas expectativas da família e de sua comunidade, são alegorias para as características de neurodivergentes como mascaramento, inibição e estereotipias.
A rigidez do delegado que se opõe a estudos e questionamentos filosóficos pode ser um equivalente à rigidez cognitiva, mas também pode ser algo como o comportamento dos neurotípicos nos forçando a um comportamento X ou Y que seja mais adequado aqui ou ali.
Durante todas as páginas do livro, desde as orelhas até a própria estrutura da narrativa, o texto subverte a ideia de normalidade. Seria necessário forçar a barra para fazer esse livro se encaixar, por exemplo, na jornada do herói de Campbel. Mas é reconhecível que Contos de Lá Longe tem um objetivo muito claro com esse questionamento da normalidade. Bem lá no finalzinho do livro, Vândalo fala de Mogüe e Nimbo, e, na descrição do camaleão, eles são bichinhos disfarçados de pessoas, e o 1Quintal é um lugar onde se pode neurodivergir à vontade, sem medos ou dedos apontando. Neurodivergentes precisam muito de lugares assim, onde não haja um jeito “normal” de ser.
A fantasia, bem como outros estímulos à imaginação, torna a realidade mais aceitável. Se não há um mundo de bichinhos coloridos, façamos um! Mesmo que seja apenas um pequeno refúgio na mente, durante algumas páginas escritas e desenhadas, se torna real e bem útil, se te ajuda de alguma forma a suportar melhor a vida dura.

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Enfim…
Mogüe e Nimbo são neurodivergentes. Conhecemo-nos na última Bienal do Rio e foi quando adquiri o livro Contos de Lá Longe. Extremamente fantasioso (ou não… quem sou eu para dizer que não existe camaleão falante?), este é um livro que, além de ser encantador, é um livro útil.
Mais uma vez, falo por mim e pelo que conversei com outros artistas neurodivergentes, é comum um artista com TEA se desenhar como um monstrinho, alienígena ou bichinho. Esta é uma forma de representar o quanto nos sentimos estranhos perante o mundo. Nas palavras da menina em Ansibanasi “Você alguma vez já sentiu que todos receberam um roteiro de como funciona o mundo, mas se esqueceram de te dar um?”

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Para todos os leitores, desejo uma boa viagem pelas terras de lá longe onde a fantasia é o tempero de degustação principal!

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Referências:
ARISTÓTELES. Poética. São Paulo-SP: Editora 34, 2015.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2007.
MOGÜE. Contos de Lá Longe. 1Quintal, 2025.
Por RENATO MOTA

