RECANTO DAS CULTURAS TRADICIONAIS – A capoeira como estética da diáspora: mundos que se encontram

RECANTO DAS CULTURAS TRADICIONAIS – A capoeira como estética da diáspora: mundos que se encontram

Introdução

Vivenciar, conhecer e apreciar arte é um direito de toda pessoa e não prerrogativa de algumas. Fazer arte é uma ordem à mente do artista e não há desordem externa capaz de contê-la. Talvez seja por isso que o contato com qualquer manifestação artística ao gosto de quem dela se aproxima é antítodo contra os males da alma. A mola da criatividade, quando muito relaxada, sem uso e sem flexão, espera um toque para a explosão: o que era paradigma se torna escolha, realização, sintagma.

Nesta coluna do presente número da Revista The Bard, o protagonismo é para a capoeira, essa arte sincrética em que se destacam música, dança e poesia, veiculadoras de valores socioculturais e de uma história de resistência diante de proibições e máculas construídas por uma sociedade que, em sua forma de (des)organização, faz escolhas equivocadas e também acertadas.

IMAGEM GERADA POR IA “usando NANO BANANA 2 LITE, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 05/08/2026″

 

É nesse rio sinuoso que é viver, que a sincronia do embalo sonoro, corporal e poético da capoeira conquista espaços e povos. É o corpo físico construindo universos no corpo social. Convido todas as pessoas a refletir mais sobre esse tesouro cultural da humanidade, seja pelo que já viu seja pelo que ouviu seja ainda pelo que leu, mas deixando que os olhos e os ouvidos apreciem sem posse e sem julgamentos essa dinâmica de linguagem universal.

 

 

Sobre a origem

Pesquisadores e capoeiristas apresentam versões divergentes sobre a origem da capoeira. No entanto, predomina a ideia, segundo Carlos Vinicius Frota de Albuquerque,  de “que ela teria surgido por volta do século XVII durante as lutas quilombolas” (2012, p. 17), quando os negros escravizados no Brasil, para sobreviverem a todo tipo de situações de perigo e humilhação, simulavam movimentos de animais para se defenderem, incorporando a eles suas dinâmicas culturais, o que deu origem à luta de nome capoeira. O pesquisador registra também que o termo foi emprestado do nome que se dá ao mato “ralo e miúdo”.

Outra versão, que se dissemina entre os capoeiristas é a ideia também de que a luta veio de Angola trazida durante o tráfico negreiro. E, no Brasil, a prática perpassou tempos e vive até hoje, se intensificando, agregando valores, e reafirmando a cultura da ancestralidade tão cheia de percalços em suas vivências em terras distantes.

Ainda, Carlos Vinicius, em suas pesquisas, diz que Carlos Eugênio Líbano Soares informa que Adolfo Morales defendia a ideia de que numa capoeira (mato ralo e miúdo) não havia condições favoráveis de luta entre os negros desarmados e os capitães do mato bem armados. Logo, a luta teria surgido entre os escravizados urbanos que realizavam trabalhos remunerados e pagavam uma parte de seu lucro àquele que se dizia seu dono.

Morales argumenta ainda que o termo teria uma provável origem na expressão tupi-guarani caapo com a acepção de “cestos de palha entrelaçada” denominados de capoeiros, que os escravizados usavam para transportarem mercadorias durante o período colonial.

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Muitas são as sugestões que outros querem para a origem da capoeira, inclusive uma surgida entre colonizadores portuguesas é a de que se trata de uma luta de criminosos. A veiculação da ideia maculou ainda mais essa luta hoje considerada patrimônio cultural imaterial da humanidade.

 

 

A criminalização e a resistência

Considerada durante a maior parte do século XIX e as primeiras décadas do século XX, como prática de criminosos, o que constituía um obstáculo para ser apreciada como manifestação artístico-cultural de um povo que resistia à violência de uma descaracterização em todos os sentidos, a capoeira foi considerada crime e registrada no Código Penal, de 11 de outubro de 1890, logo após o que se chamou de Abolição da Escravatura.

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Mesmo sendo severamente reprimida pela força policial da época, a capoeira sobrevivia na cladestinidade, dada sua força natural artística e cultural de uma origem que teima em não morrer. De acordo com Josivaldo Pires e Luiz Augusto (2009), na época, apareceram dois apoiadores, Barão do Rio Branco e Coelho Neto, opositores do poder judiciário, respectivamente envolvidos nas esferas científica e política com a proposta de valorização da capoeira, transformando-a em esporte brasileiro.

Importante destacar que essa proposta chegou com a ideologia de embranquecimento da população. Para esse fim, segundo os pesquisadores, destacaram-se defensores da capoeira, ligados a espaços de poder como Sinhôzinho Agenor Moreira Sampaio e Burlamaqui.

Mesmo com esse apoio, a capoeira era tida como ilegal, até que, no ano de 1937, em Salvador, na Bahia, o Mestre Bimba, Manuel dos Reis Machado, conquistou uma licença oficial da Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública do Estado para o seu Centro de Cultura Física e Capoeira Regional e um certificado de professor de Educação Física (Albuquerque, 2012, p. 23). Essa luta ia de encontro ao projeto nacional de embranquecimento da população, anteriormente inciado.

Com a proposta de ensino de ginástica brasileira, a capoeira deixou de ser perseguida e passou a ter duas designações: Capoeira Regional e Capoeira Angola.

 

Um avanço rumo a uma identidade

A Capoeira Regional foi uma proposta do mestre Bimba, cujo nome era Manuel dos Reis Machado (1900-1974). A Capoeira Angola foi uma proposta do mestre Pastinha, de nome Vicente Ferreira Pastinha (1889-1981). Ambos os movimentos foram inciados na Bahia, abrindo espaço para a permissão de existir. Durante algum tempo, essas duas modalidades prevaleceram, primeiro surgiu a Regional, depois a Angola como forma de desconstrução da primeira.

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Algumas pessoas, descontentes com essa divisão, lançaram uma nova capoeira, com nomes a exemplo de contemporânea, angonal ou atual. Era uma forma de misturar valores, tanto os da diápora africana no Brasil quanto de outros que dela achegavam, seja querendo se aproveitar das situação para ascensão financeira ou mesmo artística. Mesmo assim, o movimento vai ganhando não só espaço, mas adeptos e defensores.

 

 

Uma conquista

Em julho de 2008, a capoeira foi reconhecida como um bem cultural do Brasil pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do IPHAN, por insentivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão do Ministério da Cultura (IPHAN/MinC). Para os historiadores Josivaldo Pires de Oliveira e Luiz Augusto Pinheiro Leal (2009, p. 43), essa conquista abriu portas para a manifestação de medidas governamentais de apoio às comunidades da capoeira. Os mestres idosos tiveram acesso a um plano de previdência social, “incentivo para o desenvolvimento de políticas pelos próprios grupos de capoeiras com o auxílio do Estado” e, sob uma ação organizacional para a capoeira, o IPHAN criou o Centro Nacional de Referência da Capoeira.

Agora mais forte, a capoeira, marcada por uma história de resistência e ações coletivas, no dia 26 de novembro de 2014, comemorou mais uma conquista. Nesse dia, a capoeira foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial da humanidade. O triunfo aconteceu na 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda, em Paris, realizada pela UNESCO, e organizada pelas Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (IPHAN).

 

 

A sincronia estética

Hoje, a capoeira, essa manifestação artística sincrética, que une música, dança e poesia, ocupa o espaço que lhe é de direito. O som é realizado pelo berimbau, instrumento composto por uma vara de madeira em formato de arco, com cerca de um metro e meio de tamanho, e um arame atado às suas extremidades. Na base do arco, ata-se uma cabaça com fundo cortado para amplificação do som.

Ao lado do berimbau, o pandeiro e o atabaque são outros instrumentos que que fazem parte de um ritual que ganha vida com cantos e responsórios, palmas e movimentos corporais, como afirmam Mônica Guimarães Teixeira do Amaral e Valdenor Silva dos Santos(2015, p. 56). Para quem aprecia a capoeira, assiste a uma verdadeira apresentação teatral.

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Mônica e Valdenor, em sua pesquisa, nos apresenta Sou guerreiro do quilombo, quilombola, letra do Mestre Barrão que narra a objetificação do corpo negro escravizado, vendido, violentado, vítima de todo tipo de desumanização. A letra assim é uma denúncia e um grito “de luta e força, em que se alternam o cantor, papel conferido usualmente aos mestres de capoeira, e o coro, acompanhados da orquestra” (2015, p. 56).

Posicionados em rodas, os capoeiristas cantam e tocam enquanto pares realizam movimentos ritualísticos. A roda é característica da estrutura do evento que congrega elementos de herança da ancestralidade africana, como afirmam Josivaldo Pires de Oliveira e Luiz Augusto Pinheiro Leal (2009), claramente banto, recriados e ressignificados no Brasil.

A dança é marcada pela ginga ou gingado que segue um ritmo determinado pelo som do berimbau. A ginga se caracteriza por movimentos realizados pelos capoeiristas durante o evento: os braços protegem o corpo e o rosto contra algum ataque surpresa. Trata-se de uma estratégia da ancestralidade africana que dificulta o adversário a atingir o alvo desejado.

 

 

Referências

OLIVEIRA, Josivaldo Pires de; LEAL, Luiz Augusto Pinheiro. Capoeira, identidade e gênero: ensaios sobre a história social da capoeira no Brasil. Salvador: EDUFBA, 2009. Disponível em: https://books.scielo.org/id/96v9g/pdf/oliveira-9788523217266-04.pdf. Acesso em: 11 ago. 2026.

ALBUQUERQUE, Carlos Vinicius Frota de. “Tá na água de beber”: culto aos ancestrais na capoeira. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Centro de Humanidades, Departamento de Ciências Socais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Fortaleza, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/6395/1/2012-DIS-CVFALBUQUERQUE.pdf. Acesso em: 08 ago. 2026.

AMARAL, Mônica Guimarães Teixeira do; SANTOS, Valdenor Silva dos. Capoeira, herdeira da diáspora negra do Atlântico: de arte criminalizada a instrumento de educação e cidadania. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 62, p. 54-73, dez. 2015. Disponível em: https://revistas.usp.br/rieb/pt_BR/article/view/107186/105725. Acesso em: 09 ago. 2026.

IFHAM. Capoeira Cadastro Nacional. Disponível em: https://capoeira.iphan.gov.br/. Acesso em: 09 ago. 2026.

 

Por NAZARETH ARRAIS

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