POETAS E POETISAS – A travessia do poema: da emoção à linguagem

POETAS E POETISAS – A travessia do poema: da emoção à linguagem

Na edição anterior, refletimos sobre o nascimento do poema, esse instante quase invisível em que o sentimento encontra sua primeira forma. Mas, se o poema nasce daquilo que transborda, ele não se completa apenas na emoção. Há um caminho entre o sentir e o dizer. E é nessa travessia que habita o verdadeiro trabalho do/a poeta. Escrever um poema não é apenas expressar o que se sente, mas escolher como esse sentimento será apresentado ao mundo. Cada palavra carrega uma emoção, um peso, um ritmo, uma intenção.

A inspiração acende a chama, mas é o trabalho que mantém o fogo aceso. Revisar um poema não é trair sua essência, mas lapidá-la. É permitir que o texto se aproxime daquilo que ele deseja ser. Há versos que pedem tempo, há imagens que amadurecem, há palavras que precisam ser substituídas para que o sentido respire com mais clareza. Nesse processo, o/a poeta também aprende a escutar. Escutar o ritmo do próprio texto, perceber onde ele tropeça, onde flui, onde silencia. A musicalidade não está apenas nas rimas, mas na cadência interna que conduz o/a leitor/a.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 28/08/2026″

 

Outro aspecto fundamental é a escolha das imagens. A poesia se constrói muito mais pelo que sugere do que pelo que explica. Uma boa metáfora não apenas descreve, ela revela. Ela abre caminhos de interpretação, convida o leitor a participar da criação do sentido.

Assim, o poema deixa de ser apenas uma expressão individual e se transforma em experiência compartilhada. O/A leitor/a não apenas lê, ele sente, reconhece, completa. Escrever poesia, portanto, é equilibrar sensibilidade e consciência. Se o poema nasce do coração, ele toca a alma de quem lê e permanece. E assim, a beleza poética reside na capacidade de transformar algo íntimo, em algo que pertence a todos.

Para dialogar com esta reflexão, apresentamos um fragmento da obra de Manoel de Barros, cuja escrita é um convite constante à reinvenção da linguagem e ao olhar sensível sobre o mundo:

 

“Uso a palavra para compor meus silêncios.”

 

Nesse verso, aparentemente simples, habita uma das maiores lições do fazer poético: a de que escrever não é apenas dizer, mas também saber o que não dizer. Manoel de Barros nos ensina que a palavra, quando bem escolhida, não preenche, ela abre. Não encerra, sugere. Não explica, revela. Sua poesia nasce do quase invisível, do que muitos não veem. E é justamente aí que se encontra sua grandeza: na capacidade de transformar o insignificante em linguagem carregada de sentido. Há, em sua obra, um exercício contínuo de escuta da natureza, do silêncio, das coisas pequenas que dialoga profundamente com o processo de construção do poema. Ler Manoel de Barros é, portanto, aprender que a poesia não está no excesso, mas na precisão. E que, muitas vezes, é no silêncio que a linguagem encontra sua forma mais profunda de existir.

 

O trabalho do poeta: da inspiração à construção do poema

Nesta edição propomos uma travessia coletiva e o/a convidamos a não apenas ler poesia, mas experimentá-la! E se o poema não fosse algo distante, reservado apenas aos que escrevem? E se ele já existisse dentro de você, esperando apenas um pequeno gesto para se revelar?

IMAGEM GERADA POR IA “usando NANO BANANA 2 LITE, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 28/08/2026″

 

Antes de tudo, pause por um instante. Silencie…

Observe o seu entorno. Pode ser o silêncio do seu quarto, o som distante de uma conversa, o vento atravessando uma janela, ou até mesmo o peso de um pensamento que insiste em permanecer. A poesia começa exatamente no que você percebe e sente.

Agora, tente transformar esse instante em palavras.

Não precisa ser perfeito, ter rimas e seguir regras. Apenas escreva.

Comece assim: “Hoje, algo em mim…” E continue.

Talvez nasça um verso ou apenas uma frase. Também pode ser que nada aconteça, e tudo bem!A poesia também habita o silêncio.

IMAGEM GERADA POR IA “usando NANO BANANA 2 LITE, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 28/08/2026″

 

Agora, um segundo convite:

Escolha uma palavra que represente o seu dia. Apenas uma.

Pode ser: saudade, cansaço, esperança, espera, recomeço.

Com essa palavra, crie uma imagem.

Exemplo:
“Cansaço é um céu que esqueceu de amanhecer.”

Percebe? Você não explicou o sentimento. Você o transformou.

Esse é o gesto poético.

Por fim, um desafio:

Complete o verso: “Guardo em mim…”

E deixe que sua própria história responda.

Não há certo ou errado. Há apenas o que é verdadeiro.

A poesia não exige técnica para começar, ela pede sentimento e presença.

Talvez você descubra que o poema não está tão distante quanto parecia. É provável que ele esteja exatamente nas palavras que você ainda não escreveu.

E, quando perceber, você não estará apenas lendo poesia.

Estará fazendo parte dela.

 

 

APRESENTAÇÃO DA COLUNA

Entre o sentir e o dizer, há um caminho delicado que transforma emoção em linguagem. É nesse espaço, feito de escolhas, silêncios e escuta, que o poema encontra sua forma mais profunda de existir. Nesta 39ª Edição da Coluna Poetas e Poetisas, convidamos você a percorrer essa travessia não como mero espectador, mas como alguém que também pode habitar a palavra.

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Mais do que reunir vozes, este encontro celebra o gesto poético como construção, partilha e descoberta. Cada texto aqui presente carrega não apenas a marca de quem escreve, mas a abertura necessária para que quem lê também se reconheça.

Que esta leitura seja, portanto, um convite: a perceber, a sentir e, sobretudo, a experimentar a poesia como algo vivo que nasce no íntimo, mas se realiza plenamente no encontro com o outro.

Gratidão por fazermos juntos esta travessia!

Abraços poéticos!

 

 

Navegar

 

Quando sinto tua falta

Vou ao encontro do mar,

E me deixou abraçar pelas ondas

Que me ensinam a mergulhar fundo

Onde o amor se faz silêncio e sal

 

No céu, o sol pintado em crepúsculo

Anuncia a noite que nunca vem só

Traz consigo a lembrança do teu olhar

Farol que guia meu coração esperançado

 

Sou vela aberta ao vento do desejo

Barco que insiste em te procurar

Mesmo sem porto sigo navegando

Nas marés da saudade que o tempo não acalma

 

E quando o dia enfim amanhece

Sei que amar-te é seguir navegando

Sem bússola, sem porto,

Mas com o mar inteiro dentro de mim

 

O mar, imensidão que és tu

Onde aporta minha alma navegante

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Por EDNA LESSA

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