Minha infância não foi perfeita.
Mas tinha um jeito curioso de consertar os dias.
Bastava um quintal,
uma bola já meio murcha,
um pedaço de giz na calçada
e a tarde parecia não ter fim.
Naquele tempo, a gente voltava para casa
sem relógio no pulso,
só quando alguém chamava pelo nome.
Hoje, às vezes, encontro aquela criança
escondida no cheiro da terra depois da chuva
ou no barulho de uma janela abrindo cedo.
Ela me lembra,
sem dizer uma palavra,
que a vida já foi simples
e continua esperando
que eu me lembre disso.
Por MARIA LUCIA HADDAD
Ottawa, Canadá

