RAÍZES DO BRASIL – A escola do Brasil, entre jesuítas e infinitas políticas educacionais

RAÍZES DO BRASIL – A escola do Brasil, entre jesuítas e infinitas políticas educacionais

A qualidade do ensino é o eterno foco das discussões sobre a Educação brasileira. Para isso, pensa-se na formação dos professores, no papel social da escola e nas dificuldades enfrentadas pelos estudantes. Em meio a esses debates, raramente nos perguntamos quando surgiu, de fato, a ideia de um ensino organizado pelo Estado no território brasileiro. Embora a educação exista desde os tempos coloniais, a noção de escola como responsabilidade governamental começou a tomar forma na segunda metade do século XVIII, durante as reformas promovidas pelo Marquês de Pombal.

Ao longo de mais de duzentos anos, após a chegada dos portugueses, a educação na colônia era religiosa e esteve sob a responsabilidade da Companhia de Jesus. Desde 1549, os jesuítas fundaram escolas, ensinaram a doutrina cristã e difundiram a alfabetização entre diferentes grupos sociais. Seu principal objetivo não era exatamente formar cidadãos, mas converter indígenas ao catolicismo, a fim de fortalecer a presença da Igreja nos territórios portugueses.

Durante muito tempo, esse sistema funcionou sem grandes interferências da Coroa. Contudo, o século XVIII trouxe profundas transformações intelectuais para a Europa. Foi o período do Iluminismo, movimento que defendia a razão, o conhecimento científico e a valorização da educação como instrumento de progresso social. Em diversos países, começou-se a questionar o enorme poder político e econômico exercido pela Igreja.

Em Portugal, essas ideias chegaram de maneira mais moderada, mas encontraram um importante representante na figura de Sebastião José de Carvalho e Melo, posteriormente conhecido como Marquês de Pombal. Nomeado primeiro-ministro pelo rei D. José I, Pombal promoveu uma ampla reorganização administrativa do império português. Seu objetivo era fortalecer o poder do Estado e modernizar o reino. Apesar disso, estudos provam que a interferência pombalina deveu-se mais à busca do fortalecimento da presença portuguesa na América do que por questões sociais da própria colônia. Para tanto, Pombal tornou oficial a língua portuguesa.

Nesse contexto, a educação passou a ocupar lugar estratégico. Para Pombal, não fazia sentido que a formação intelectual dos súditos permanecesse sob controle exclusivo dos jesuítas. Em 1759, tomou uma das decisões mais radicais da história portuguesa: expulsou a Companhia de Jesus de todos os domínios do império. De uma só vez, centenas de escolas ficaram sem professores e milhares de estudantes perderam suas referências educacionais.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 26/07/2026″

 

A medida gerou uma crise imediata. Era necessário substituir rapidamente uma estrutura de ensino construída ao longo de dois séculos. Foi então que surgiram as chamadas aulas régias, financiadas pela Coroa e conduzidas por professores nomeados pelo governo. Na Capitania de São Paulo, um personagem teve papel decisivo nesse processo: Dom Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, mais conhecido como Morgado de Mateus. Governador da capitania entre 1765 e 1775, ele tornou-se um importante executor das reformas pombalinas.

Os documentos da época revelam que o Morgado de Mateus valorizava profundamente a educação. Essa preocupação tanto em sua atuação administrativa, quanto em sua vida familiar. Ao escolher uma esposa, por exemplo, considerava indispensável que ela possuísse sólida formação intelectual e refinamento cultural. Sua esposa, Dona Leonor de Portugal, dominava diversas línguas, entre elas o francês, o inglês e o latim, algo bastante incomum para mulheres daquele período.

Mesmo governando a milhares de quilômetros de distância de sua família, o Morgado acompanhava atentamente os estudos dos filhos. Cartas preservadas em arquivos históricos mostram sua preocupação constante com a instrução e a formação moral dos descendentes. A educação, para ele, era um elemento fundamental de distinção social e de preparação para a vida pública.

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Entretanto, a realidade da população paulista era bastante diferente daquela vivida pela elite. A alfabetização permanecia restrita a uma pequena parcela dos habitantes. A maioria das pessoas aprendia apenas os conhecimentos considerados necessários para o trabalho cotidiano, sem acesso à leitura ou à escrita formal. Frequentar uma escola ainda era um privilégio de poucos.

As reformas pombalinas não resolveram imediatamente esse problema, mas marcaram uma mudança significativa. Pela primeira vez, o ensino deixou de ser exclusivamente uma questão religiosa e passou a ser laica. Ressalta-se, contudo, que o direito às aulas régias restringia-se aos homens livres e da elite.

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Esse capítulo de nossa história educacional perdura até os dias atuais, em que ainda se fazem necessários debates sobre assuntos que nunca se encerram, como currículo, gestão escolar e formação docente. As discussões sobre o fazer educacional sempre têm (ou deveriam ter!) em vista um ensino de qualidade e acessível a todos os brasileiros em idade escolar.

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Fontes

BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil colonial: o governo do Morgado de Mateus em São Paulo (1765-1775). São Paulo: Alameda, 2007.

FALCON, Francisco José Calazans. A época pombalina. São Paulo: Ática, 1982.

MUNHOZ, Renata Ferreira; COSTA, Renata Ferreira. A aplicação dos padrões de ensino propostos pelo Marquês de Pombal na Capitania de São Paulo.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. Campinas: Autores Associados, 2013.

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