Sabe aquele personagem de ficção que você odeia e que se aparecesse na sua frente na rua, com certeza iria ouvir umas poucas e boas?
Muito bem, é exatamente sobre a vida dele que vamos falar nessa matéria.
Venham comigo desvendar as características da construção do personagem e como elas são extremamente importantes para alavancar a sua história!

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Adriana Magalhães, Criada em 03/08/2026″
O equilíbrio na construção da história e características do personagem
Criar personagens marcantes é uma das partes mais fascinantes, e também mais difíceis na minha humilde opnião, da construção de um romance. Um personagem forte não é necessariamente alguém poderoso, extraordinário, inteligente ou carismático. Um personagem forte é aquele que possui presença dentro da história. É alguém que o leitor consegue imaginar existindo mesmo quando o livro está fechado. É aquele personagem ao qual o leitor quer quebrar a cara dele se encontrar ele na fila do mercado. Acho que vocês já sentiram isso?
Para que isso aconteça, é importante que o personagem tenha desejos, medos, contradições, vulnerabilidades, relações e, principalmente, capacidade de fazer escolhas que tenham consequências. Uma boa personagem não está simplesmente dentro da história: ela participa da construção da história. Muitas vezes, determinados acontecimentos só acontecem porque aquela pessoa, sendo quem é, tomou determinada decisão. E isso faz a história acontecer.
Uma maneira interessante de começar é descobrir o que o personagem quer. Não basta dizer que ele quer ser feliz ou encontrar o amor. É melhor transformar esse desejo em alguma coisa concreta. Ele pode querer comprar a casa onde cresceu, reconquistar o filho, abandonar a cidade onde nasceu, conseguir uma promoção, descobrir um segredo familiar ou provar alguma coisa para alguém. O importante é que exista alguma coisa que ele esteja tentando alcançar. Sempre.

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“Sem desejo não existe movimento, sem movimento não existe história.”
Esse desejo cria movimento. Mas existe uma diferença importante entre aquilo que o personagem quer e aquilo de que ele realmente precisa.
Uma mulher pode acreditar que precisa recuperar o casamento, por exemplo, quando, na realidade, precisa aprender a viver sem controlar as pessoas que ama. Um homem pode acreditar que precisa ganhar muito dinheiro, quando, na verdade, precisa deixar de acreditar que só merece respeito quando possui dinheiro. O desejo é aquilo que o personagem procura conscientemente; a necessidade é aquilo que a história vai revelar sobre ele.
É justamente nessa distância entre desejo e necessidade que podemos encontrar um arco de personagem muito interessante. Depois de descobrir o que ele quer, precisamos perguntar por que ele quer aquilo. É aqui que começa a aparecer a história emocional do personagem.

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Talvez alguma coisa tenha acontecido no passado e alterado a maneira como ele enxerga o mundo. Não precisa ser necessariamente um grande trauma. Pode ter sido o abandono de um pai, uma humilhação na adolescência, uma amizade perdida, a sensação de nunca ter sido suficientemente bom para a própria família ou até mesmo uma oportunidade que ele teve e desperdiçou.
O acontecimento passado é menos importante do que a conclusão que o personagem tirou dele.
Uma pessoa abandonada pelo pai pode concluir: “As pessoas sempre vão embora.” A partir disso, pode começar a abandonar os outros antes que eles tenham a oportunidade de abandoná-la. Assim, uma experiência passada produz uma crença, e essa crença produz um comportamento no presente.

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É isso que torna uma biografia literariamente útil. O passado não precisa aparecer em longas explicações; ele precisa continuar agindo sobre o personagem durante toda a história.
Outro elemento essencial é a contradição. Pessoas reais são contraditórias, e personagens também devem ser. Essas contradições podem despertar sentimentos muito interessantes nos leitores.
Uma personagem pode ser extremamente generosa e, ao mesmo tempo, cruel com a própria família. Pode ser corajosa no trabalho e covarde no amor. Pode ser religiosa e sentir raiva de Deus. Pode defender a liberdade dos outros e ser extremamente controladora com os filhos.

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Essas contradições tornam a personagem falha, e assim humana.
Também é importante que o personagem tenha qualidades. Às vezes, na tentativa de criar personagens complexos, o escritor acumula defeitos, traumas, segredos e problemas. Mas um personagem interessante não precisa ser uma coleção de sofrimentos. Ele também deve possuir alguma qualidade que faça o leitor admirá-lo ou, pelo menos, compreender por que outras pessoas gostam dele.
Talvez seja extremamente leal. Talvez tenha coragem. Talvez seja engraçado, generoso, inteligente ou capaz de cuidar dos outros.
O interessante é quando a mesma característica pode ser virtude e defeito.
Uma mulher extremamente leal pode permanecer ao lado de pessoas que a destroem. Um homem muito protetor pode acabar controlando quem ama. Uma pessoa extremamente independente pode ser incapaz de pedir ajuda. Uma pessoa muito generosa pode não saber estabelecer limites.
Assim, aquilo que há de melhor no personagem também pode ser aquilo que o coloca em dificuldade e faz a história caminhar.
É importante ainda que o defeito produza acontecimentos. Não adianta escrever que determinado personagem é impaciente se sua impaciência nunca influencia a história. O defeito precisa interferir nas escolhas a cada capítulo até desfazer o nó do problema no enredo.
Imagine um homem que não consegue admitir que está errado. Ele interpreta uma situação equivocadamente, alguém tenta corrigi-lo, ele se sente humilhado, reage agressivamente e acaba perdendo uma oportunidade importante. Mais tarde, precisa decidir se admite o erro ou se continua defendendo uma mentira para preservar o próprio orgulho.

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Nesse caso, o defeito deixou de ser uma informação sobre o personagem e tornou-se um mecanismo da narrativa.
Isso nos leva a uma questão muito importante: “personagens fortes precisam fazer escolhas.”
Podemos escrever que uma personagem é generosa, mas isso é apenas uma descrição. A literatura começa a aparecer quando colocamos essa personagem diante de uma situação em que precisa decidir.
Ela encontra uma carteira cheia de dinheiro. Precisa desesperadamente daquele dinheiro. Ninguém a viu encontrá-la. O que ela faz? Devolve tudo? Fica com o dinheiro? Procura o dono? Devolve os documentos, mas fica com o dinheiro? Talvez inicialmente pense em ficar com tudo e depois mude de ideia. Talvez devolva o dinheiro, mas descubra posteriormente que o dono é alguém que prejudicou sua família.

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A personagem começa a existir de verdade quando precisa escolher, quando ela começa a agir.
E essa é uma das regras que considero mais importantes para a criação de personagens: não diga apenas quem a pessoa é. Coloque-a em situações nas quais ela precise demonstrar quem é de verdade.
Por isso, para você alinhar esses pontos na construção do personagem, eu recomendaria começar com uma personalidade básica e algumas perguntas fundamentais.

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Quem é essa pessoa? O que ela quer? Por que quer isso? O que teme perder? O que aconteceu no passado que ainda influencia suas decisões? Em que acredita por causa disso? O que há de admirável nela? Qual é seu defeito mais perigoso? O que ela não consegue admitir? Quem ela ama? Quem ela não perdoa? E, finalmente, que escolha ela terá de fazer que não poderá evitar?
Depois disso, coloque-a em situações simples. Faça-a receber dinheiro a mais no troco. Faça alguém que ela despreza pedir sua ajuda. Faça uma pessoa amada dizer uma verdade dolorosa. Dê a ela exatamente aquilo que sempre desejou. Depois, ofereça a possibilidade de realizar seu maior sonho ao custo de prejudicar alguém inocente.

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Não pense primeiro no que seria mais dramático.
Pergunte simplesmente: “O que essa pessoa faria?”
E depois pergunte:
“Por que ela faria isso?”
É dessa segunda pergunta que muitas vezes nasce a verdadeira personagem.
Mas talvez o exercício mais importante seja observar os próprios romances. Ao ler um livro brasileiro, tente esquecer por alguns momentos a trama e acompanhe apenas uma personagem. Observe o que ela deseja, o que esconde, como fala, o que percebe, o que não percebe, como trata as pessoas que ama, como reage ao dinheiro, ao fracasso e à humilhação, e quais escolhas revelam seu caráter.
Lembre-se! A teoria serve para dar nomes ao que percebemos intuitivamente na literatura.
E, sobretudo, não tente criar uma personagem “forte” desde o primeiro momento. Tente criar uma pessoa que você consiga compreender profundamente. Quando o escritor conhece as contradições de uma personagem, suas pequenas vergonhas, seus desejos secretos, suas justificativas e seus limites, a força costuma aparecer naturalmente.
No fundo, criar uma personagem marcante é fazer com que o leitor chegue a um ponto em que consiga pensar:
“Eu jamais faria o que ela fez.”
E, logo depois:
“Mas eu entendo perfeitamente por que ela fez.”
Nos encontraremos na próxima edição para nos aprofundarmos ainda mais na criação de personagens que vão fazer seus leitores te seguirem pelo resto da vida de verdade.
Aguardo vocês!

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Por LILIAN STOCCO

