A crônica é, talvez, o gênero literário mais democrático que existe. Não exige enredo complexo, não demanda cem páginas de construção, não precisa de personagens memoráveis ou eventos épicos. Exige apenas uma coisa: olhar. O olhar do cronista é um instrumento de precisão, uma lente que amplia o que todos veem mas que ninguém realmente observa.
Nascida nos jornais, a crônica sempre viveu nessa fronteira fascinante entre o jornalismo e a literatura. O cronista é, como definiu um escritor, um repórter microscópico que escolhe suas próprias pautas. Ele não corre atrás de grandes furos ou manchetes. Ele para. Ele olha. Ele vê.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 22/08/2026″
Quando Rubem Braga escreveu sobre uma borboleta amarela que pousou em sua mesa, não estava relatando um fato jornalístico. Estava revelando algo sobre a fragilidade, sobre o assombro, sobre a capacidade que a vida tem de, no meio da rotina mais cinzenta, depositar diante de nós algo de impossível beleza. Quando Machado de Assis narrava os bastidores das conversas sociais do Rio de Janeiro, não estava fazendo reportagem. Estava dissecando a alma humana com a delicadeza de um cirurgião e a malícia de um palhaço.
A grande crônica tem uma arquitetura específica: uma abertura que prende, um desenvolvimento que mergulha o leitor na cena, e um desfecho que ressignifica tudo o que veio antes. O último parágrafo é o momento mágico, é quando o particular se transforma em universal, quando uma conversa de elevador vira reflexão sobre a solidão urbana, quando um detalhe insignificante revela uma verdade enorme sobre quem nós somos.
Gabriel García Márquez, Nobel de Literatura que nunca deixou de se considerar um jornalista, disse que qualquer sucesso ou pessoa pode provocar a escrita. A história está latente no mundo, esperando quem saiba descobri-la. O cronista é, acima de tudo, um curioso profissional. Um ser que se interessa por tudo: por pessoas, por ruas, por tipos, por contradições, por aquilo que aparentemente não tem importância nenhuma, mas que, quando iluminado pela palavra certa, revela-se um espelho da condição humana.
É essa a missão desta coluna. A cada edição, traremos três crônicas com tons variados, às vezes líricas, às vezes irônicas, às vezes reflexivas, que partem do cotidiano e chegam a algum lugar que o leitor não esperava. O objetivo é simples e ambicioso: que você, leitor, feche esta página sentindo que olhou para o mundo de um jeito que não olhava antes. Que encontre, no meio da leitura, aquela frase que faz pensar, aquela imagem que fica, aquele silêncio que ressoa.

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A crônica pode tudo, como disse Martha Medeiros. É um espaço aberto, um diálogo íntimo entre quem escreve e quem lê. E como todo bom diálogo, ele só acontece de verdade quando há escuta, quando o cronista escuta o mundo e o leitor se reconhece no que ouve.
Bem-vindos à coluna. A pauta de hoje é a vida.
Crônica 1: O Homem que Aprendeu a Esperar
Há um homem que todo dia senta no mesmo banco da praça. Não sei o nome dele. Sei que chega por volta das seis da tarde, sempre com o mesmo jornal dobrado debaixo do braço, e senta no mesmo lugar: o terceiro banco a partir da entrada leste, o que fica debaixo da árvore mais alta.
Não é um homem jovem. Os cabelos brancos aparecem sob o chapéu de feltro que ele usa mesmo no calor. As mãos são grandes, de dedos grossos, mãos que parecem ter segurado coisas pesadas durante a vida inteira. Mas quando ele abre o jornal, os dedos se movem com uma delicadeza que não combina com a aparência. Como se estivesse manuseando algo frágil, uma folha seca, uma carta antiga, uma confidência.

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Eu o observo de longe, da minha mesa na cafeteria em frente à praça. Há quase um ano o vejo fazer a mesma coisa: sentar, abrir o jornal, ler devagar, fechar, dobrar com cuidado, colocar debaixo do braço e ir embora. Sempre o mesmo trajeto, sempre o mesmo horário, sempre o mesmo banco.

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Certo dia, venci a preguiça e fui até ele. Sentei no banco ao lado, fingindo ler algo no celular. Esperei. Ele não me olhou. Continuei esperando. Nada. Até que, sem tirar os olhos do jornal, ele disse:
— Você está aqui há três quartos de hora. Ou quer alguma coisa ou está fugindo de alguma coisa.
Sorri, constrangido por ter sido lido tão facilmente.
— Quero saber uma coisa. O senhor lê o jornal todo dia? Lê tudo?
— Não. Só as notícias ruins.
— Por quê?
Ele dobrou uma página com aquele cuidado de quem dobra um lenço de seda e me olhou pela primeira vez. Os olhos eram de um azul desbotado, daquele que já foi intenso e agora é apenas a lembrança do que foi.
— Porque as notícias ruins são as únicas que valem a pena ler. Não porque sejam boas. Porque são verdadeiras. Ninguém mente quando fala de desgraça. As boas notícias são sempre suspeitas. Já as ruins… as ruins são a vida mostrando a cara.
Fiquei em silêncio. Ele voltou ao jornal.

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— Mas então por que continua lendo? Se só lê desgraça, não fica triste?
Ele fechou o jornal. Dobrou. Colocou sob o braço. Levantou-se.
— Fico. Mas ficar triste é melhor do que não sentir nada. Tristeza é prova de que você ainda está prestando atenção.
E foi embora. O banco ficou vazio, com uma folha seca que tinha caído da árvore enquanto conversávamos. Olhei para a folha e pensei: talvez fosse isso que ele vinha ler todos os dias, há um ano, no mesmo banco, debaixo da mesma árvore. Não o jornal. A queda.
Crônica 2: A Reunião que Não Acabava
Há um tipo específico de reunião que deveria ser classificado como crime contra a humanidade. Não a reunião produtiva, essa é uma espécie mitológica, como o unicórnio ou o amigo que devolve o livro emprestado. Falo da reunião que poderia ter sido um e-mail. Ou um torpedo. Ou um aceno de cabeça no corredor.
Era uma terça-feira como qualquer outra quando entramos na sala de conferências para discutir “alinhamento de processos”, expressão que, no idioma corporativo, significa “vamos sentar todos juntos e fingir que decidimos algo que já foi decidido antes de entrarmos aqui”.

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O coordenador abriu a reunião com uma frase que deveria ser estudada em laboratórios de letargia:
— Antes de começarmos, gostaria de fazer um breve alinhamento.
“Breve alinhamento” é o “vou ser rápido” do cachorro que ainda não aprendeu que a perna não é um meio de transporte. Sempre é uma mentira bem-intencionada.
Havia uma tela. Havia slides. Havia um cronograma impresso em que a palavra “objetivos” aparecia sete vezes sem que nenhum objetivo tivesse sido, de fato, listado. Havia café aguado e biscoitos que pareciam ter sido assados durante a primeira Guerra Mundial, possivelmente pelos mesmos fornecedores.
A reunião tinha pauta. A pauta tinha tópicos. Os tópicos tinham subtópicos. E os subtópicos geravam discussões que não tinham nada a ver com a pauta, o que gerava a necessidade de “voltar ao assunto principal”, o que gerava uma nova discussão sobre o que era, afinal, o assunto principal.
Às dez horas, estávamos discutindo o item dois da pauta. Às dez e meia, ainda discutíamos o item dois, mas agora com uma ramificação que envolvia o item cinco, que ninguém lembrava o que era. Às onze horas, alguém sugeriu “dar um passo atrás e olhar o quadro geral”. O quadro geral era: éramos oito adultos sentados em uma sala dizendo “concordo” para coisas que ninguém tinha dito.
Às onze e quarenta e cinco, o coordenador olhou o relógio e disse:
— Gente, o tempo está curto. Vamos condensar.
“Vamos condensar” é o sinal súbito de que se perdeu a partida e é melhor arrumar as peças antes que alguém perceba. Condensar, nessas circunstâncias, significa ler os tópicos restantes em velocidade de leiloeiro e dar por encerrada a discussão com a frase “alguma dúvida?”, pergunta que não admite resposta, porque ninguém em sã consciência vai levantar a mão depois de três horas de reunião.

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Saí da sala com a sensação de que havia envelhecido três anos em uma manhã. No corredor, cruzei com o estagiário, que perguntou:
— Como foi a reunião?
— Produtiva, respondi, sem saber por quê.
Talvez porque seja mais fácil mentir do que explicar que passei três horas da minha vida que não voltam ouvindo alguém dizer “alinhamento” enquanto os biscoitos rachavam entre meus dentes como se fossem de pedra. E a vida, como sabemos, é feita de reuniões que não acabam e de biscoitos que nunca amolecem.
Crônica 3: As coisas que guardamos
Minha mãe guardava tudo. Ingressos de cinema, recibos de padaria, bilhetes que eu escrevi na escola com letra torta e sentimentos retos. Guardava caixas de sapato cheias de fotografias que ninguém olhava, canetas que não escreviam mais, cartões de Natal de pessoas que já tinham morrido.

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Quando ela faleceu, fui organizar o apartamento. Levei três dias. Não pela quantidade de coisas. Havia menos do que eu imaginava. Levei três dias porque cada objeto que eu tirava da gaveta era uma conversa que eu não tinha tido.
Encontrei um bilhete que escrevi quando tinha uns dez anos. Dizia: “Mãe, fui jogar bola na praça. Volto às 5. Não se preocupe.” Abaixo, com a letra dela, ela tinha escrito: “Ele voltou às 5h20. Tinha errado a hora.”
O bilhete tinha sido guardado por mais de trinta anos.
Encontrei também uma receita médica de 1987, um mapa de uma cidade que nunca visitamos juntos, um pedaço de fita que não sei de onde veio. Nada disso tinha valor. Tudo isso tinha valor.

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O que minha mãe guardava não eram objetos. Eram provas. Provas de que a vida tinha acontecido. De que aquele bilhete existiu porque eu existia. De que aquele ingresso de cinema existiu porque ela e meu pai tinham ido ao cinema em uma noite de 1992 e, por uma hora e quarenta minutos, tinham sido duas pessoas comuns sentadas no escuro, comendo pipoca, rindo de algo que esqueceram na manhã seguinte.
Nós guardamos coisas porque temos medo de esquecer. E esquecer é o equivalente doméstico da morte. É a prova de que algo que existiu deixou de existir na memória. Cada recibo guardado, cada foto na gaveta, cada bilhete amassado é uma tentativa desesperada de dizer: isso aconteceu, eu estive aqui, alguém me viu.

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Quando terminei de organizar tudo, joguei fora a maior parte. Fiquei com três coisas: o bilhete que escrevi aos dez anos, uma foto dela sorrindo na praia, e uma caneta que não escreve mais, mas que ela usava para marcar os dias no calendário da cozinha.
São três objetos que não servem para nada. Que não têm valor comercial, histórico ou prático. Mas que são, cada um deles, a prova de que em algum momento do tempo, em algum lugar do mundo, uma mulher guardou um papelzinho escrito pelo filho com letra torta e escreveu embaixo: “Ele voltou às 5h20. Tinha errado a hora.”
E isso, eu acho, é o que a gente chama de amor. Não a palavra grande dos poemas e das canções. O amor pequeno, miúdo, que cabe em uma caixa de sapato e que sobrevive a tudo, inclusive a quem não está mais aqui para abrir a gaveta.

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Por J.B WOLF

