HISTÓRIA DAS ARTES – ⁠ Bandeiras, hinos e desfiles: a história dos rituais cívicos na escola

HISTÓRIA DAS ARTES – ⁠ Bandeiras, hinos e desfiles: a história dos rituais cívicos na escola

O Hino Nacional Brasileiro prova que a emoção da fruição ensina o coração; antes mesmo da compreensão da razão.

Leonardo Brelaz.

 

Escrever sobre símbolos é escrever sobre memórias afetivas, pertencimento, reconhecimento. Olhar meu sobrinho chorar após a eliminação do Brasil da Copa de 2026, é reconhecer que os símbolos ensinados no âmbito escolar cumprem seu papel. Ouço todos os dias aqui no quintal de casa na escola que fica na outra rua, as crianças cantarem o hino. É a mesma melodia, no mesmo horário. Primeiro vem o chiado do microfone, depois o coro das crianças, meio desafinado, mas firme. O som atravessa o muro e me alcança no meio das tarefas de casa. Por alguns segundos paro tudo. E não é só o hino nacional. Em época de Copa do Mundo acontece a mesma coisa, só que mais alto. A música toca na TV, no rádio do vizinho, no carro que passa com bandeira na janela. E todo mundo para, canta junto, põe a mão no peito. Gente que nem se conhece vira “nós” por 90 minutos.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Adriana Magalhães, Criada em 03/08/2026″

 

É curioso pensar nisso. O hino da escola e o hino da Copa têm o mesmo simbolismo. Os dois servem pra dar arrepio, pra lembrar quem a gente é e de onde veio. Um foi feito pra formar cidadão dentro do pátio. O outro foi feito pra formar torcida dentro do estádio e nas ruas. Nos dois casos o objetivo é o mesmo: criar sentimento de pertencimento, de “nós somos um só país”, mesmo quando o país está dividido em tudo o mais. Na hora em que ouço, volto pra minha infância: todo mundo em fila no pátio, uniforme alinhado, esperando o hasteamento da bandeira. Parávamos, ficávamos em silêncio e cantávamos juntos. Era tudo muito rígido. Os alunos em fila, por tamanho ou por sexo, todos uniformizados. Na hora do hino, postura firme, igualzinho a comportamento militar. Nada de bagunça. Nem entendia direito o porquê na época, mas hoje vejo que aquilo dizia muito sobre o Brasil. A história dos rituais cívicos nas escolas brasileiras mostra como a política do país foi mudando. Essas cerimônias sempre serviram pra duas coisas: criar uma identidade nacional e também controlar um pouco o comportamento das pessoas.

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No começo do século XX, hastear a bandeira e cantar o hino na escola não era só tradição. Era política mesmo. O Estado usava isso pra espalhar os símbolos da República e fazer todo mundo se sentir parte do mesmo Brasil. Sem adentrar muito em pormenores, observando a história política do país, pode-se apontar três motivos principais pra essa preocupação do governo na época:

  1. O Brasil recém tinha se tornado República em 1889: Então era tudo muito novo ainda. O governo precisava tirar o peso da monarquia e fazer os símbolos republicanos pegarem. Bandeira verde e amarela, lema “Ordem e Progresso”. Tudo isso tinha que entrar na cabeça das pessoas.
  2. O país era muito grande e dividido: Com um território enorme e cada região puxando muito pro seu lado. Os rituais na escola serviam pra criar esse sentimento de “somos todos brasileiros”, pra enfraquecer regionalismo e manter o país unido.
  3. A escola virou ferramenta do Estado: Era onde eles conseguiam pegar a criança todo dia e ensinar do zero. Com a matéria de Instrução Cívica e os rituais diários, a ideia era formar o “bom cidadão”: disciplinado, trabalhador, obediente e patriota.

E tinha também a questão da imigração. No início do século XX entraram no país italianos, alemães, japoneses e outros. Muitas colônias mantinham a própria língua e costumes, e isso preocupava o governo. Pra “aportuguesar” esses filhos de imigrantes, a solução foi obrigar todo mundo a participar do hasteamento da bandeira e do hino. Assim o Estado garantia que a lealdade deles fosse com o Brasil, e não com o país de origem dos pais.

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Bandeira e hino eram tratados quase como coisa sagrada. Errar a letra do hino ou tratar o pavilhão com descaso era visto como ofensa grave à pátria e podia até dar punição. No geral, os rituais cívicos na escola sempre serviram pra socializar politicamente. Eles passam valores de identidade e pertencimento, mas também mostram o quanto cada época era mais autoritária ou mais democrática. Às vezes era pura exaltação patriótica, outras vezes abria espaço pra crítica social.

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Mas tudo isso sofreu mudanças ao longo do tempo: na Primeira República e Era Vargas (1889–1945) houve a necessidade de criar uma identidade nova, diferente do Império. Então hino e desfile entraram na rotina da escola pra reforçar essa ideia de “brasilidade”. Na Era Vargas, principalmente no Estado Novo, isso ficou ainda mais obrigatório.

Já na Ditadura Militar (1964–198) a escola virou instrumento pra impor um nacionalismo ufanista e doutrinar os alunos. Hastear a bandeira todo dia e desfile de 7 de setembro viraram obrigatórios, sem discussão. Além disso, criaram disciplinas como Educação Moral e Cívica – EMC e OSPB pra passar valores de obediência, moral e civismo. Era também uma forma de combater ideias de esquerda e segurar os movimentos estudantis.

Com a redemocratização nos anos 1980 em diante e o fim da ditadura, essas práticas começaram a ser questionadas. Professores, pedagogos e movimentos sociais criticaram essa ligação entre civismo e submissão, e também o uso da escola como palanque do governo.

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Nos anos 1990 as matérias impostas pela ditadura foram perdendo força e depois acabaram. O foco mudou: em vez de só celebrar, passou-se a falar de direitos humanos, diversidade e formar cidadãos que pensam criticamente. E hoje, o que diz a lei?

Mesmo com todas as mudanças, a lei ainda garante o ensino dos símbolos pátrios. É obrigatório tocar o Hino Nacional nas escolas de ensino fundamental e trabalhar os símbolos oficiais: Bandeira, Hino, Armas e Selo.

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O que fica quando o hino cala? No fim, a escola virou esse palco onde o Estado moldava identidade e comportamento ao mesmo tempo. E eu, como tanta gente, cresci vendo isso acontecer de perto. Achava que era só rotina. Hoje precisamos entender que era política, era história, era o Brasil tentando se inventar todos os dias. A diferença é que atualmente a ideia não é mais repetir sem pensar. É entender e interpretar esses símbolos. Perguntar: o que essa bandeira representa pra mim, para você? O que esse hino quer dizer agora, em 2026, num país tão diferente do de 1889? Talvez seja por isso que o hino ainda mexe comigo, com você. Porque ele carrega memória. Carrega infância, pátio, fila, medo de errar a letra. Carrega também Copa, estádio cheio, gente cantando junto mesmo sem se conhecer. E até hoje, quando o hino toca aqui na escola no fundo do meu quintal, ou quando a “canção da Copa” toca na TV, eu lembro. Emociono-me.  E sou impulsionada a cantar junto. Não por obrigação. Mas porque, de algum jeito, cantar ainda é a forma mais simples que a gente encontrou de dizer: eu faço parte disso aqui.

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Vejo flores verde, amarelas, azuis e brancas em você! Ate à próxima!

Por BETÂNIA PEREIRA

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