Há lembranças da infância que atravessam o tempo, mesmo quando tantos outros detalhes da vida se perdem pelo caminho. Raramente elas estão ligadas a uma prova, a uma atividade no caderno ou ao conteúdo de uma aula. O que permanece são as histórias contadas em roda, as brincadeiras que transformavam o pátio em um universo inteiro, as cantigas entoadas em coro e aquela professora que, sem perceber, ensinava que aprender também podia ser um gesto de encantamento.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 28/07/2026″
Essas recordações revelam algo essencial: a formação de uma criança não começa apenas quando ela aprende a decifrar as palavras. Ela acontece também quando descobre sentidos no mundo que a cerca. Um graveto pode se transformar em varinha mágica, um lençol estendido entre cadeiras pode abrigar um castelo e um quintal, por alguns minutos, tornar-se uma floresta inteira. A imaginação abre caminhos que nenhum conteúdo escolar alcança sozinho. É por meio dela que a infância experimenta, interpreta e recria a realidade.
A escola participa profundamente desse percurso. É um dos primeiros espaços em que crianças de diferentes histórias se encontram, compartilham referências e descobrem que existem muitas formas de olhar para a mesma paisagem. Cada uma chega trazendo marcas da própria família, da comunidade onde vive, das histórias ouvidas antes de dormir, das canções aprendidas em casa e das brincadeiras que acompanharam seus primeiros anos. Nada disso fica do lado de fora da sala de aula. Essas experiências atravessam a porta da escola junto com a criança e passam a fazer parte da construção de novos conhecimentos.

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Madalena Freire dedicou boa parte de sua trajetória à defesa de uma educação que reconhecesse o estudante como sujeito da própria história. Essa perspectiva ganha ainda mais força quando pensamos em uma escola que acolhe a infância em sua complexidade. Ensinar não significa apagar os saberes que a criança traz consigo para preencher espaços vazios. Significa ampliar caminhos, permitindo que suas experiências encontrem diálogo com novos conhecimentos, diferentes linguagens e múltiplas manifestações culturais.
Esse encontro entre o vivido e o descoberto fortalece a construção do repertório cultural da criança. Ele não nasce pronto, nem se resume à quantidade de livros lidos ou de informações acumuladas ao longo do tempo. Vai sendo formado nas experiências que despertam curiosidade, provocam encantamento e permanecem guardadas na memória. Uma cantiga de roda, uma parlenda, um conto da tradição oral, uma pintura observada com atenção ou uma brincadeira compartilhada com um colega carregam significados que ultrapassam o momento em que acontecem. Aos poucos, passam a fazer parte da forma como a criança compreende a si mesma, o outro e o lugar que ocupa no mundo.
Brincar ocupa um lugar central nesse processo. Durante muito tempo, essa experiência foi vista apenas como uma pausa entre atividades consideradas mais importantes. Essa compreensão, porém, deixa de reconhecer a riqueza de aprendizagens que nascem enquanto a criança brinca. A pesquisadora Tizuko Morchida Kishimoto defende que o brincar constitui uma linguagem própria da infância. Ao inventar personagens, criar regras, resolver pequenos conflitos e construir mundos imaginários, a criança desenvolve linguagem, memória, criatividade, cooperação e pensamento simbólico. A brincadeira não acontece à margem da aprendizagem; ela é um dos caminhos pelos quais a aprendizagem se torna possível.

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Basta observar uma sala de Educação Infantil ou os primeiros anos do Ensino Fundamental por alguns minutos para perceber que o conhecimento nem sempre chega acompanhado de grandes acontecimentos. Ele também nasce quando duas crianças negociam quem será o primeiro personagem de uma história inventada no momento da brincadeira, quando uma ensina à outra as regras de um jogo ou quando um desenho desperta perguntas que nenhum planejamento previa. São cenas simples, mas carregadas de significado. Quem convive com crianças aprende a reconhecer a força desses instantes, em que aprender e descobrir caminham juntos.

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Existe uma parte da escola que dificilmente aparece nos registros oficiais, mas permanece profundamente marcada na memória de quem vive a infância. Ela se revela nos vínculos que as crianças constroem, na confiança que nasce entre elas e na liberdade de experimentar sem o medo constante de errar. A infância aprende com o corpo inteiro: aprende quando canta, quando desenha, quando corre, quando observa uma formiga atravessando o pátio ou quando transforma uma simples caixa de papelão em barco, casa ou foguete. Nenhuma dessas experiências é pequena. Cada uma delas amplia a maneira como a criança percebe, interpreta e se relaciona com o mundo.
Esse olhar para a infância também transforma a maneira como o educador se coloca diante da criança. Escutá-la não significa apenas responder às suas perguntas, mas acolher suas hipóteses, respeitar seu tempo, acompanhar suas descobertas e perceber que cada gesto também comunica. Antes de dominar conceitos, a criança revela curiosidade. Antes de organizar respostas, experimenta caminhos. É nesse movimento de descoberta que a aprendizagem vai ganhando sentido.
As reflexões de bell hooks ajudam a compreender que a educação se fortalece quando as relações humanas ocupam um lugar central no processo de aprendizagem. Sua obra, embora construída a partir de diferentes contextos de ensino, nos convida a pensar em uma prática pedagógica baseada no respeito, na escuta e no reconhecimento da voz de cada sujeito. A infância revela essa necessidade todos os dias. Uma criança que se sente acolhida participa, pergunta, cria e se permite descobrir novos caminhos. O conhecimento, então, deixa de ser apenas uma resposta esperada e passa a nascer também das trocas, das experiências e dos encontros.
Falar de imaginação também é falar de cultura. Nenhuma criança imagina a partir do vazio. Suas histórias, personagens e brincadeiras nascem do encontro com aquilo que ela vê, escuta e experimenta. Um livro apresentado em sala, uma história compartilhada, uma manifestação artística conhecida ou uma brincadeira tradicional preservada ampliam seu repertório e fortalecem sua identidade cultural. A escola, nesse encontro de experiências, transforma-se em um espaço onde diferentes memórias se aproximam e novos sentidos de pertencimento começam a nascer.

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A infância também precisa de tempo. Tempo para repetir uma cantiga até que ela se torne memória, para ouvir uma história mais de uma vez, para fazer perguntas sem a necessidade imediata de encontrar respostas e para imaginar mundos que ainda não existem. Algumas aprendizagens amadurecem justamente nesses intervalos, longe da urgência por resultados. Preservar a infância é proteger esse espaço de encantamento, onde a cultura não é apenas ensinada, mas vivida por meio das experiências que atravessam a sensibilidade.
A formação cultural começa muito antes de a criança conhecer o nome desse processo. Ela nasce nos encontros, nas narrativas compartilhadas, nos jogos, nas manifestações populares, nos livros, nas artes e nas brincadeiras que atravessam gerações. Cada uma dessas experiências amplia o olhar infantil e contribui para que a criança reconheça a própria história, suas raízes e sua relação com o mundo, sem perder a curiosidade diante daquilo que ainda deseja descobrir.
Sempre que uma escola preserva espaços de criação, faz mais do que cumprir uma proposta educativa. Ela participa da formação de crianças que aprendem a respeitar diferentes culturas, reconhecem suas origens e compreendem que a imaginação não representa uma fuga da realidade, mas uma forma de interpretá-la, reinventá-la e transformá-la. Uma das contribuições mais duradouras da educação está justamente em oferecer experiências que permanecem vivas muito depois que a infância se transforma em lembrança.

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Ao olhar para os primeiros anos da vida escolar, percebemos que aprendizagem, cultura e imaginação caminham juntas desde o início. Enquanto uma criança brinca, cria, escuta histórias, canta, observa e pergunta, também constrói referências que acompanharão sua maneira de pensar, sentir e participar do mundo. Educar ultrapassa a transmissão de conteúdos. É um compromisso com a formação humana, com aquilo que permite às novas gerações reconhecerem suas raízes, ampliarem seus repertórios culturais e continuarem escrevendo, com criatividade e consciência, as muitas histórias que constroem um país.
Por JEANE TERTULIANO

