E quem disse que uma história fofinha e fantasiosa não pode ser estranha ou mesmo assustadora? Aqui trago mais uma bela (e sinistra) história de fantasia, com momentos de chá, ratinhos vestidos com roupas elegantes, princesinhas arrogantes e garotas fortes. Começaremos com uma breve definição de beleza, em um sentido filosófico e com seus contrapontos, para só então entrarmos na história de Aurora nas Sombras, de Fabien VehlMann e Kerascoët. Nessa obra, o belo, o grotesco, o encanto e o medo andam de mãos dadas em meio a aquarelas suaves e representações assustadoras. Por fim, faremos um breve paralelo entre a jornada da protagonista dessa história e a jornada do herói, proposta por Campbell. Devo avisar que vai ter spoiler. Então, vamos a mais uma aventura?

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Entre o belo e o grotesco em Aurora nas Sombras, de Fabien Vehlmann e Kerascoët

Imagem – Capa do livro Aurora Nas Sombras por Google
Do belo ao grotesco
Segundo Ariano Suassuna (2007) (que descanse na paz), Platão e Aristóteles são as principais referências quando se estuda o belo, seus efeitos e suas formas de construção. No caso de Platão, a estética tratará da aparência, já que, para ele, a essência cabe apenas aos deuses e ao plano das ideias. Já Aristóteles trouxe a estética também como uma maneira de transmitir uma experiência. De qualquer forma, para ambos, a beleza está ligada às características do objeto observado, considerando assim o belo como algo objetivo, medível.
E nisso de objetividade e quantificação do belo, Aristóteles criou uma régua de medição que vai de muito negativo até muito positivo, onde se tem: cômico (com uma apresentação caricata ou distorcida da realidade, usada para causar riso); beleza do horrível (algo agigantado e ligado ao que é contrário ao que seria natural); beleza do feio (alguns elementos desarmônicos são colocados para causar estranhamento de forma proposital); risível (algo que tem seus elementos desarmônicos, mas não chega a ser feio ou assustador); neutro (que nem é bonito nem é feito, só está lá presente, mas não se destaca); gracioso (com boas proporções e harmonia, mas em pequenas doses, como animaizinhos, brinquedos delicados ou bibelôs); belo (mantêm-se as características do gracioso, mas aumenta-se a escala); sublime (representação de aspectos da realidade com tamanhos bem grandes, como uma grande tempestade no mar ou um imponente retrato em grandes proporções); e trágico (o retrato mais fiel possível de uma realidade).
Expostos esses conceitos, vamos a uma observação dos detalhes de Aurora nas Sombras, de Fabien VehlMann & Kerascoët.
O mundo se desfazendo
Aurora nas Sombras começa com um clichê, uma mocinha e um mocinho em um encontro romântico, com chá e biscoitos, mas a coisa descamba rápido. No momento do beijo, um pingo de alguma coisa cai sobre o personagem que servia o chá e tanto a mocinha (Aurora) quanto seu interesse romântico (Hector), bem como todos os outros personagens da história se percebem em perigo e chegam à conclusão: aquele mundo está se desfazendo. Na página seguinte, temos uma imagem de uma menininha de 8 ou 9 anos, morta no mato, debaixo de chuva, com vários personagens saindo de sua boca, ouvidos, olhos e nariz. Até o final da história não se sabe o que ou quem matou a menina, nem o porquê.

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Aquarela suave
São nítidos, nas ilustrações, dois estilos gráficos na aquarela que compõe as páginas. O primeiro estilo apresentado é cartunesco e, se for colocado na escala de beleza citada, ficaria entre o risível, já que não são retratos fiéis das formas humanas, e o gracioso, pois são de fato personagens muito bonitos, pequenos e delicados, com escolhas de cores e adornos muito bem feitas. Já o segundo estilo de desenho retrata de forma mais realista a menina morta, a chuva e o mato na penumbra da noite, remetendo mais ao trágico, principalmente pelo tema retratado, uma criança morta e uma multidão de fantasias desfeitas e sonhos perdidos.

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Fantasias e mundo real ou o choque

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Quando amanhece e a chuva para, a protagonista procura abrigo e encontra a mochila da menina morta. Escorada no material escolar da criança sem vida, há uma personagem de vestido vermelho, que possui uma tesoura e está comendo pedaços de biscoitos que encontrou na mochila. Ao longo da história, ela parece ser a “voz adulta na sala”.
A partir daqui, começa um circo de horrores desenhado com traços bonitinhos e aquarela suave. A protagonista tenta criar uma maneira de sobreviverem no mundo novo, mas um a um, os personagens são mortos. Primeiro os biscoitos são divididos, mas acabam; eles tentam encontrar frutas, mas alguns se perdem; uma jovem, que cuida de um bebê, é enterrada viva porque outra garota achou-a feia; o bebê é simplesmente esquecido no mato; uma pequena bailarina aninha-se com passarinhos e sua boca é destroçada quando a mamãe pássaro vai alimentá-la; outra bailarina é levada por formigas; uma personagem maior não se satisfaz com as migalhas de biscoito e começa a canibalizar as amigas menores, depois termina entalada em um buraco que servia de casa para outra personagem; e há ainda uma que se recusa a sair do corpo da menina morta e apodrecida, e passa a morar entre tapurus e moscas.
A cada dia, a quantidade de personagens diminui, seja porque um gato entrou em um dos abrigos improvisados e levou um ou dois bonequinhos, seja porque eles se mataram de alguma forma. Sobre matarem uns aos outros, cabe destaque para Zélia, que age como uma princesa arrogante, dando ordens e tomando tudo o que quer para si. Pouco depois da metade da história, Zélia encena um casamento com Hector, que era o interesse romântico de Aurora. Isso depois de mandar enterrar viva uma garota por considerá-la monstruosa, pois a garota vítima só tinha um olho. Nesse ponto da história, Zélia colocara ao seu serviço os personagens sobreviventes e frustrara a ideia de Aurora de fazer uma festa. Furiosa, Aurora fura os olhos de um camundongo com quem fizera amizade e, sem terem o que comer, os bonequinhos comem o pequeno animal. Aurora usa o couro da cabeça do roedor para fazer um chapéu, mantendo o focinho e as orelhas. Antes de completar um dia de casamento, Zélia deixa um laço cair num lago, e Hector é engolido por um anfíbio ao tentar resgatar o pertence da esposa.
Nesse ponto, aparece um adulto. Um grande e barbudo homem caminha pela floresta, deixando pegadas. Ele mora em uma casa nas redondezas e sobre ele não encontramos muitas informações. Enquanto Zélia encena o enterro de Hector, ordenando a todos os seus seguidores que chorem com ela, Aurora reencontra a jovem que andava com a tesoura e vai morar com ela em um relógio de parede na casa do homem. Aqui vemos o homem e a casa também desenhados de forma realista.

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Aurora e a mulher da tesoura passam a impressão de que são, na verdade, a mesma pessoa, ou aspectos de uma mesma pessoa. Aurora é pequena e mais jovem, mas é proativa e quer crescer. Ela usa um vestido que tem uma estampa infantil, branco com bolinhas. A outra, mais velha, é dona de si e parece saber o que fazer da vida. Ela foi a primeira a encontrar um equipamento (tesoura), comida (biscoitos) e um abrigo seguro (relógio na parede da casa do homem). Aurora, sendo a protagonista da história, talvez seja como a menina morta se imaginava, e a mulher da tesoura, talvez fosse sua figura materna ou o que ela queria ser quando crescesse.
Zélia e seus seguidores vão em direção à casa do homem, cantando e fazendo barulho, e a mulher da tesoura cavalga um pássaro de asas podadas para tentar impedir que Zélia chegue. Aurora fica em casa e vê Zélia chegar montando o pássaro, acompanhada de outros. A mulher da tesoura não aparece mais.
Com uma última artimanha, Aurora retoma a casa no relógio. Ela mostra o que ela chama de “lugar secreto” a um dos seguidores de Zélia e pede segredo. O jovem denuncia Aurora a Zélia que, agora, quer o lugar secreto para ela. É um lugar mais quentinho e confortável, mas Aurora fecha a porta por fora. Na verdade, o lugar secreto, confortável e quentinho é a parte do fogão onde se coloca a lenha. De longe, Aurora assiste ao homem acender o fogo para preparar comida e se aquecer. A pequena sobrevivente cortou um tufo de cabelo da barba do homem, pois gostava do cheiro dele. Ela termina a história falando em reconstruir o ninho e chamando o homem de “meu doce príncipe”.
Seguimos nossa conversa refletindo sobre algumas formas de interpretar as personagens e a história.
Formas de ver
Uma coisa que se pode ver claramente é a ideia de que fantasias nos ajudam a viver, mas não sustentam a vida, pois não abrigam de fato e não alimentam. A realidade vem de forma dura e crua, para devorar o corpo e matar os sonhos. É preciso estar disposto a crescer e abrir mão de coisas que já não servem para que haja espaço para o novo em nossas vidas.
Nesse sentido, a morte da menina pode ser lida de forma literal ou de forma simbólica. A morte pode ser uma metáfora para o fim da infância e das fantasias, tanto que, no início, Aurora se interessa por Hector, trajado de príncipe, e, ao final, o “doce príncipe” dela é um homem cuidando da vida de forma prática. Ou esse homem da cabana era o pai, ou o assassino da criança, ou ninguém importante? Não há informação alguma sobre ele, e a única ligação que se tem entre ele e a infância é a de que há algumas bonecas velhas na cabana onde ele mora.
No caso de Aurora nas Sombras, a beleza reside muitas vezes na simplicidade de uma vida comum e nos pequenos prazeres, como uma sopa no jantar e uma cama para dormir.

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Medindo a beleza das coisas?
Aurora nas Sombras é uma história em quadrinhos, onde se vê cada um dos elementos da escala estética de Aristóteles citados aqui. Paisagens enormes para as proporções dos pequenos personagens, causando neles encantamento e espanto, e cenas grotescas como o cadáver de uma criança, coberto de moscas e larvas. Além disso, alguns personagens, desenhados com maestria e delicadeza, estão alimentando-se dessas larvas, enfiando-as na boca e sujando-se com a viscosidade delas.
Ver a beleza como algo que pode ser medido é questionável, mas questionar Platão e Aristóteles não é tarefa simples, afinal, desde o tempo deles, eles ainda estão por aqui, dando opinião e sendo levados a sério. Em Aurora nas Sombras vemos vários contrastes e gradações, como as sombras e luzes; as personagens cartunescas e fofinhas e as personagens desenhadas de forma mais realísticas; a história que ora parece um conto de fadas e ora parece um conto de terror; ou o contraste entre Aurora, com aparência infantil, e a mulher da tesoura, dona de si; bonequinhas fofas que devoram larvas, tornando tudo encantador e assustador; o título da obra “Aurora nas Sombras” que traz em si um contraste entre o nome Aurora (luz do dia nascente) e sombras; e, finalmente, o contraste entre Aurora, com a letra “A” iniciando o nome, e Zélia, com a letra “Z”, indo de “A” a “Z”, com todo tipo de personalidade. Essas variações entre positivo e negativo, com seus incontáveis intermediários, abrangem toda a escala proposta por Aristóteles.
Em termos de jornada, Aurora muitas vezes não segue passos tão nítidos quanto Campbell (2007) gostaria, mas podemos percebê-los em algumas partes da história. Aurora começa no mundo comum dela, e, mesmo que não queira, se vê obrigada a sair do corpo da menina morta que se dilui em apodrecimento (vale destaque aqui para a bonequinha que fica morando no crânio da falecida criança, e essa sim, se “recusa ao chamado” de sair do mundo comum); encontra a mentora, que é a mulher com a tesoura; atravessa o primeiro limiar, quando tenta sobreviver e estabelecer uma ordem social na nova condição dos personagens; encontra amigos e inimigos; sua caverna oculta e a provação vêm na forma da festa que dá errado e no casamento de seu interesse romântico Hector com Zélia, a manipuladora; e sua recompensa é ficar na casa do homem solitário. Eventos como “caminho de volta”, “ressurreição” e “retorno com o elixir” ficam amalgamados no fato de que Aurora está em relativa segurança, morando sozinha no relógio de parede. A subversão de um modelo do tipo jornada do herói, aqui se torna mais um elemento de assimetria e contraste, quando comparamos essa fantasia com outras, tirando a obra do clichê.
A obra apresenta uma fantasia nada convencional. A mocinha não é indefesa, o príncipe foi comido pelo anfíbio e a princesa era a vilã. Aurora nas Sombras é uma história em quadrinhos encantadora, tanto pela beleza dos desenhos quanto pela beleza da jornada de crescimento da protagonista, contando bons pontos de tensão e um desfecho no mínimo, inusitado.
Chegamos ao fim de mais um Desvendando a fantasia. Espero que tenham gostado e que tenha chegado um pouco do encantamento de crescer, de visão das coisas novas e da lembrança saudosa das belezas e ingenuidades da infância.
Bibliografia
SUASSUNA, Ariano. Iniciação à Estética. 7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2007.
VEHLMANN, Fabien; KERASCÖET. Aurora nas Sombras. Rio de Janeiro-RJ: Dark Side, 2019.
ARISTÓTELES. Poética. São Paulo-SP: Editora 34, 2015.
Por RENATO MOTA
